Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.
04 de março de 2010

Dez dias após o carnaval, resolvi mergulhar com dois amigos na área do Farol da Barra para confirmar a notícia de que havia uma quantidade absurda de lixo espalhada pelo fundo do mar naquela área.

Mesmo com a água um pouco suja por causa das chuvas do dia anterior, logo identificamos o local. Na verdade o lixo não estava espalhado, mas concentrado em um canal provavelmente em razão do movimento das marés. Uma cena lamentável! Eram pelo menos mil e quinhentas latinhas metálicas e garrafas plásticas.

Da superfície o visual parecia com as imagens áreas que vemos dos blocos de carnaval durante a festa momesca. Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.

Assustados, decidimos não retirar o material naquele dia na esperança de tentar sensibilizar algum veículo de comunicação para fazer uma matéria com imagens subaquáticas. A intenção era compartilhar aquela agressão carnavalesca com nossa população e os donos da folia.

Fizemos contato com pelo menos três emissoras e todas pediram que enviássemos e-mails com fotos, o que fizemos imediatamente. Aguardamos respostas por dois dias e como não tivemos qualquer retorno, optamos por retirar o lixão de lá para evitar maiores danos.


A bem da verdade estávamos super desconfortáveis com nossas consciências por termos testemunhado aquela cena e deixado para resolver o problema dias após. Mas tínhamos que tentar a matéria para que a ação não se resumisse somente à coleta do material.


Tínhamos em mente que a repercussão sensibilizaria os empresários e artistas do carnaval, os órgão públicos, a imprensa, as empresas financiadoras e nossa gente. A tentativa foi boa, mas não rolou…

Fomos então, no terceiro dia após o primeiro mergulho, retirar o material. Antes, porém, fiz questão de chamar um amigo que tem uma caixa estanque para filmarmos a ação e guardarmos o documentário visando trabalhos futuros e até mesmo a matéria que queríamos na TV.

Sem cilindro de ar e contando apenas com duas pranchas de SUP (Stand Up Paddle) e alguns sacos grandes, éramos quatro mergulhadores ousados retirando do fundo do mar tudo o que podíamos naquela tarde.




Pouco antes de o sol se pôr conseguimos finalmente colocar todo o lixo na calçada.
Muitos curiosos, inclusive turistas, olhavam intrigados a nossa atitude e a todo o instante nos questionavam sobre a origem daquele resíduo. A resposta estava na ponta da língua: Carnaval!

Vou logo informando aos amigos leitores que não sou contra o carnaval, muito pelo contrário, sou fã por diversos motivos, mas acho que a realidade da festa não guarda a menor relação com as belíssimas cenas, as informações rasgadas de elogios e a excessiva euforia amplamente divulgada pela mídia.
Sei que o comprometimento com os patrocinadores e aquela velha guerrinha de vaidades contra os carnavais de outros estados como Pernambuco e Rio de Janeiro, acabam conspirando para isso. Mas vejo aí um modelo cansado, super dimensionado, sem inovações socialmente positivas e remando na direção oposta ao desenvolvimento sustentável da nossa cidade.
Aquele lixo submarino é um pequeno sinal deste retrocesso. Pior, patrocinado solidariamente pelos grandes empresários, artistas e principalmente pelo poder público que tem o dever de melhorar nossa segurança, nossa saúde e educação.



Aproveito o embalo para incluir indignação semelhante sobre os eventos realizados na praia do Porto da Barra durante o verão.
O “Música no Porto” e o “Espicha Verão” não tem trazido nada de bom para nossa cidade, além da oportunidade de vermos ótimos artistas de perto e de graça. De resto, o lixo, o mau cheiro, a degradação ambiental, o xixi pelas ruas, a impressionante quantidade de ambulantes amontoados por todos os espaços públicos e a agressão aos patrimônios históricos, são um grande “pé na bunda” do turista de qualidade.




É o mesmo que olhar para uma bela maçã com a casca brilhante e aspecto suculento, porém, apodrecida por dentro…
Naquele final de tarde acabamos contemplando um por do sol diferente. O monte de lixo empilhado na calçada do Farol da Barra virou atração. E como Deus é grande, fomos brindados com a presença de valorosos catadores de rua para finalizar a limpeza.

Desta ação, além das ótimas imagens documentadas em vídeo, resta rezar para que os donos do carnaval, dos eventos no Porto da Barra e nossos queridos foliões se toquem que algo tem que mudar.

O fundo do mar não merece aquele bloco reluzente e, ao contrário do asfalto, o oceano costuma revidar violentamente as agressões sofridas.
Não tem alegria alguma no fundo da folia!

Fotos: Francisco Pedro / Projeto Lixo Marinho - Global Garbage Brasil
francisco.pedro@globalgarbage.org
Fotos do Espicha Verão 2010: João Ramos / Bahiatursa e Luciano da Matta / Agência A Tarde
Nota:
A matéria O Fundo da Folia foi publicada no dia 05 de março. No dia 15 de março, nós substituímos as fotos do Espicha Verão 2010. As fotos atuais (Bahiatursa e Agência A Tarde) foram feitas no dia 13 de março, encerramento do Espicha Verão 2010. A campanha pela preservação do meio ambiente, coordenada pelo IMA - Instituto de Meio Ambiente do Estado da Bahia, só foi realizada no dia do fechamento (13 de março) do Espicha Verão 2010.
Link: http://www.globalgarbage.org/blog/index.php/2010/03/05/o-fundo-da-folia/
Link para Twitter: http://bit.ly/o-fundo-da-folia
Outros artigos de Bernardo Mussi
São um bando de fanfarrões q só sabem destruir, esgotar, banalizar e que se foda o resto do mundo!
KD A CONCIÊNCIA DO SER HUMANO…
isso ai não é ser gente…é o contrário….BICHOS totalmente IRRACIONAIS
o pior é eles gostam de mijar na rua e monumentos ,até dentro de onibus eu sentí o cheiro. (reportagem da Veja semana passada)no rio estão tendo mais educação e o municipio está colocando mais recipientes de coleta.
Sem piadas idiotas como alguns dos comentários fizeram….
O mundo precisa de mais pessoas com iniciativa como os quato rapazes. Se todos pensassem assim, concerteza viveriamos em um mundo infinitamente melhor e mais bonito!
Parabéns rapaziada
[...] “Sem cilindro de ar e contando apenas com duas pranchas de SUP (Stand Up Paddle) e alguns sacos grandes, éramos quatro mergulhadores ousados retirando do fundo do mar tudo o que podíamos naquela tarde”, afirma Bernardo Mussi, um dos mergulhadores, no site da Global Garbage. [...]
[...] .[[Fonte: GlobalGarbage] // Tags: Bahia, Bernardo Mussi, Carnaval, Farol da Barra, Folia no fundo do mar, Francisco [...]
que horror!
so podia ser na bahia…
Parabéns aos quatro rapazes!! É um absurdo a quantidade de lixo gerado nessas épocas de festas!
Também moro numa cidade praiana (Santos/Sp) e às vezes me pego caminhando a beira mar e recolhendo latas, garrafas, embalagens, bitucas de cigarro, fraldas e tantas outras coisas que são descartadas no chão como se outra pessoa tivesse a obrigação de catar, custa procurar uma lixeira? E não tem a desculpa “não há lata de lixo”, oras, leve uma sacola para a praia e reúna seu lixo!!!!
Não há consciência que o Planeta está “chegando ao fim” por nossa causa?? Se não dermos exemplo às crianças, estas crescerão e não terão respeito algum pelo meio ambiente!
Custa não jogar lixo no chão? Ou pela janela do carro? Eles acham o quê? Que desaparecerá como num passe de mágica??!
Ou a idéia idiota de dizer que está mantendo o trabalho dos garis?
O absurdo maior foi a mídia não ter dado importância!! Parabéns a “skol” pelo apoio!
Deixo aqui impressa minha indignação e aviso que estou divulgando por email os sites sobre essa matéria tão importante!
….que horror!! O q mais nos deixa perplexo é o descaso da mídia! Realmente estamos vivendo num mundo de vaidades…morreremos por isso, só não vê quem não quer. Parabéns aos mergulhadores, vcs são um exemplo de solidariedade…Mta luz e paz pra vcs!!
E assim caminha a humanidade!!!
Imaginem o que não fazem com os rios pelo Interior.
….Rio jequitinhonha no Sul da Bahia, os turistas são diferentes, mais partem dos mesmos locais, iguais os dos Carnavais; só que para os rios é para a pesca predatoria e assassinas.
Ja vi muito isso!!
Quando esse tipo de materia e/ou protesto chega a publico através da Internet, os órgãos de imprensa faz sua “vista grossa”, Claro!! as fotos que ali estão do fundo do mar, é fotos das maiores marcas que subsidiam o Carnaval e emissoras.
Será que conseguiremos salvar o Planeta?
Com a palavra os mais jovens!!
Arnaldo Alves
No mais recente feriado de São Jorge (23/4/2010) estive em Búzios com minha família e fiquei chocada com a quantidade de latas e sacos plásticos em diversas praias, não só na areia como no fundo do mar.
A praia da Ferradurinha que era uma delícia para pequenos mergulhos em apnéia estava com o costão direito tomado por latinhas, além de inúmeros preservativos. Pena que não tinha máquina sub para registrar. O pior: tinha dezenas de tartarugas no entorno da praia.
Uma vergonha! Um lugar tão bonito, frequentado por pessoas sem educação!
Poo, baiano já é bem mal aducado, ficar fazendo show em praia é pedir pra o mundo se acabar.
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