Alma Surf entrevista o surfista Bernardo Mussi, responsável pela limpeza de praia em Salvador

Ação que aconteceu após o Carnaval na Praia da Barra, contou com a presença de amigos e ganhou repercussão internacional

 

 

Carnaval Salvador

Lembranças do Carnaval de Salvador

Grupo de amigos se mobiliza para limpar sujeira do fundo da Praia da Barra

por Alexandra Iarussi     14/4/2010

 

Este é o lado do Carnaval que poucos conhecem. Praia da Barra, Salvador, Bahia. Foto: Francisco Pedro / Global Garbage

Este é o lado do Carnaval que poucos conhecem. Praia da Barra, Salvador, Bahia. Foto: Francisco Pedro / Global Garbage

 

Passada a folia do Carnaval de Salvador, foi a vez do lixo e das latas submersas sambarem com o vai e vem da maré nas praias que compõem o circuito Barra-Ondina, trecho que compreende  a praia Porto da Barra até a Praia do Cristo; resultado da total falta de respeito dos foliões com o meio ambiente, que, enquanto dançavam ao som das batidas carnavalescas, despejavam, inconsequentemente, seu lixo na praia.

Dez dias após a quarta-feira de cinzas, o surfista Bernardo Mussi e mais dois amigos, decidiram mergulhar na região do Farol da Barra e se espantaram com a visão submarina de latas e garrafas plásticas empilhadas, restos de abadás e outros objetos. Suas estimativas apontavam aproximadamente 1500 latinhas e garrafas plásticas.

Apesar do choque inicial, optaram por não recolher o lixo e decidiram comunicar às autoridades locais. Fotografaram e captaram imagens, que foram entregues à imprensa de Salvador. Em vão. Três dias se passaram e nenhuma entidade governamental nem imprensa se manifestaram sobre o assunto.

Decidiram então agir com as próprias mãos. Com duas pranchas de Stand Up Paddle, apenas o fôlego dos pulmões e sacolas, os mergulhadores seguiram na empreitada de retirar todo o lixo possível do fundo do mar até o final da tarde. Cada saco de lixo que saía da água era depositado na beira da praia, e despertava curiosidade nos banhistas e turistas que passeavam pela orla, que questionavam a procedência de tudo aquilo. 

No entanto, a atitude dos corajosos mergulhadores adquiriu dimensão muito maior do que eles imaginavam. Dias depois, Bernardo Mussi publicou um texto no site de uma ONG, intitulado “O Fundo da Folia”, que acabou traduzido para o alemão e para o inglês. “Depois que fiz a matéria e lancei no meu blog, meu amigo Fabiano Prado, que lidera a ONG Global Garbage lá da Alemanha, publicou em seu blog e espalhou (a notícia) pelo mundo,” completa Mussi.

Em Salvador, os canais de televisão e os veículos impressos trataram de contactar os rapazes, em busca de informações e das imagens chocantes. “Porém, senti enorme restrição dos grandes veículos em tratar do tema com profundidade. Poucos falaram do Carnaval e da responsabilidade solidária dos agentes que fazem a festa acontecer. Quase nenhum deles se atreveu a trazer a opinião dos artistas, empresários, patrocinadores e dos órgãos públicos em busca de soluções,” declarou Bernardo à Alma Surf.

Em busca de maiores detalhes, a Alma Surf entrou em contato com Bernardo Mussi. O  resultado desta conversa,você confere aqui.

almasurf.com

 

 

Carnaval Salvador

Alma Surf entrevista o surfista Bernardo Mussi, responsável pela limpeza de praia em Salvador

Ação que aconteceu após o Carnaval na Praia da Barra, contou com a presença de amigos e ganhou repercussão internacional

por Alexandra Iarussi     14/4/2010

 

Quando ninguém se mobiliza, é assim que se faz. Bernardo Mussi e amigo não pensaram duas vezes para entrar em ação na Praia da Barra, Salvador, Bahia. Foto: Francisco Pedro / Global Garbage

Quando ninguém se mobiliza, é assim que se faz. Bernardo Mussi e amigo não pensaram duas vezes para entrar em ação na Praia da Barra, Salvador, Bahia. Foto: Francisco Pedro / Global Garbage

 

Quando chegaram ao fundo do mar não acreditaram no que viram. Latas e garrafas plásticas empilhadas na areia, ofuscavam os organismos que por lá habitavam. A paisagem, horrível aos olhos do observador menos sensível, bem que poderia ser fruto de um pesadelo, mas não. Era a realidade da Praia da Barra, um dos alvos prediletos dos foliões de plantão, que, desavisados e despreocupados, curtiram o Carnaval de suas vidas.

“Eu já havia detectado o lixo do carnaval no fundo do mar durante a folia, pois remava constantemente com meu SUP pela área. Quando chegamos lá – eu, o biólogo Francisco Pedro e  meu amigo Zé Augusto, também com seu SUP - ficamos impressionados e resolvemos procurar pela imprensa. Mas, passou um tempo e não obtivemos resposta. Aí, resolvemos agir por nossa conta.” declara Bernardo Mussi.

A atitude, a princípio ignorada pela mídia local, acabou tomando proporções maiores, chamando atenção de veículos internacionais e repercutindo nas emissoras e jornais locais. E a Alma Surf, ciente dos acontecimentos acima, procurou pelo longboarder Bernardo Mussi, que nos contou a história completa, bem como falou sua paixão e envolvimento de longas décadas com o surf.  A entrevista, você confere abaixo:

 

ALMA SURF:  Você é longboarder  - campeão brasileiro de 1993, inclusive. Você surfa há quanto tempo? Qual a sua relação com o surf?

Bernardo Mussi: Tenho 44 anos e comecei a surfar com 11 aqui na Barra, em Salvador. Minha relação com o surf é extremamente visceral, já que além da paixão natural pela prática, já fui competidor, dirigente de entidades, fiz programa de TV e rádio de surf, escrevi para jornais especializados…

Montei a primeira Escolinha de Surf da Bahia (Acasurf) em 1993; em 1996 introduzi o longboard através do curso de salvamento no Salvamar (salva-vidas), e fundei, junto de um amigo o Clube Baiano de Longboard em 2000. Sou formado em Educação Física e Direito. E o mais importante, continuo surfando com a mesma paixão que tinha na adolescência.

Você já publicou algumas matérias  no surfbahia.com.br. Me parece que esta ação não tenha sido  isolada. Comente.

Nós surfistas somos naturalmente afeitos às questões ambientais, pois vivemos grandes emoções e muito prazer quando estamos no mar ou envoltos pelas demais forças da natureza. É da nossa essência querer que o mar seja eternamente limpo e propício para a prática do surf. Isso me toca desde 1986, quando organizei um dos meus primeiros campeonatos de surf, com slogan “S.O.S Barravento”, lutando pela limpeza da praia pela Associação de Surf da Barra (que fundamos naquele ano).

E quem te acompanhou no mergulho?

Eu já havia detectado o lixo do carnaval no fundo do mar durante a folia, pois remava constantemente com meu SUP pela área. Sempre carrego um óculos de mergulhar e um sacão de tela para recolher o que encontrar pelo caminho. Depois da matéria no meu blog, o biólogo Francisco Pedro entrou em contato comigo, me alertando sobre a altíssima concentração de latinhas e decidimos checar na primeira oportunidade, junto do amigo Zé Augusto e seu SUP.

Ficamos impressionados e resolvemos tentar uma matéria na TV. Depois de enviar fotos, aguardamos três dias e, sem resposta, resolvemos fazer a ação. Chamei o fotógrafo e cinegrafista Fabio Medeiros, também surfista, para filmar, e fizemos o que fizemos. No momento do mergulho, apareceu o amigo Elton Ricelli, mergulhador  do Mato Grosso, que também nos ajudou bastante.

Vocês procuraram a imprensa e não obtiveram resposta. E depois? Qual foi a repercussão?

Todos veículos de TV aberta local nos procuraram. A Record fez uma matéria em rede nacional que teve enorme repercussão. Fiz diversas entrevistas para outras emissoras, rádios e jornais. Porém, senti enorme restrição dos grandes veículos em tratar do tema com profundidade. Poucos falaram do Carnaval e da responsabilidade solidária dos agentes que fazem a festa acontecer. Quase nenhum deles  se atreveu a trazer a opinião dos artistas, empresários, patrocinadores e órgãos públicos em busca de soluções. Fica evidente o comprometimento desta turma com a poderosa força financiadora de patrocinadores, como as cervejarias que estavam em praticamente todas as emissoras de TV, todos os blocos, trios, camarotes e etc.

Nós fomos muito felizes com a repercussão internacional que a ação surtiu. Está servindo de modelo para discussões locais sobre o Carnaval de Salvador, servindo de estímulo para ONGs e outras entidades que trabalham com o lixo marinho, para universidades, monografias, etc.

E na internet?

Na web, nos blogs, sites e outras ferramentas, as pessoas cobraram posição destes agentes. Foi na web que percebi ser possível ter minhas opiniões divulgadas sem qualquer problema. Acreditamos porém, que estes patrocinadores possam influenciar postivamente seus patrocinados para ações inovadoras e socialmente positivas para a folia do ano que vem. O modelo do Carnaval que temos hoje em Salvador depende destas empresas e uma estratégia ousada e criativa poderá limpar a mancha deixada por aquelas imagens.

Nos dias 27 e 28 de março (depois de vocês), a Skol realizou uma ação  nas praias - do Porto da Barra até a Praia do Cristo - de coleta de lixo. Você soube de alguma coisa? Esteve lá?

Realmente eles fizeram uma ação e aproveitaram o nome da matéria que fiz para batizá-la de  ‘O Fundo da Folia’.  Contrataram mergulhadores e uma boa estrutura para fazer uma limpeza do trecho entre a Praia do Porto da Parra e do Cristo. Porém, em decorrência das condições do mar, acho que ficaram apenas na área do Porto e Farol da Barra. Acho toda e qualquer iniciativa que venha para somar, muito interessante.

A maioria das pessoas, inclusive eu, esperamos por ações mais ousadas das empresas que detém praticamente todos os agentes da folia em suas mãos. Grandes empresas que podem ajudar a tornar o carnaval muito mais interessante, mais limpo, diferente e criativo. As corporações devem ter a consciência de seu papel no desenvolvimento de fundamentos básicos da sociedade como educação e a saúde. Parece um contrasenso, mas a sincera preocupação destas empresas com o bem estar e qualidade de vida da nossa gente e da nossa cidade certamente é a melhor das estratégias de marketing. O Carnaval deve ser encarado como uma excelente ferramenta e ótima oportunidade para promover desenvolvimento sustentável.

Isto nos demonstra o potencial das ações individuais, um motivo a mais para que nós, surfistas, nos mobilizemos. Afinal, temos no ecossistema marinho nossa grande fonte de prazer e diversão.

Fico super orgulhoso por levar o nome do surf junto desta ação, já que a maioria das matérias da web e dos veículos de comunicação impresso e eletrônicos, me apresentam como surfista. E faço questão de me apresentar assim…

 

Esse é Bernardo Mussi, nas horas vagas. Direita na praia do Barravento, Salvador, Bahia. Foto: Miguel Brussi

Esse é Bernardo Mussi, nas horas vagas. Direita na praia do Barravento, Salvador, Bahia. Foto: Miguel Brussel

 

almasurf.com



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