Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

Um homem normal e vestido de forma adequada causa olhares espantados aos desavisados enquanto revira lixeiras, caçambas e sacos deixados pela rua. Ele não é um catador comum.

 

 

Bocada - Forte ::: Reportagens

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

Data: 15/04/2010

Por: Jéssica Balbino

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

Da baixada santista, artista recicla conceitos com inspiração no Hip-Hop e na literatura marginal

Um homem normal e vestido de forma adequada causa olhares espantados aos desavisados enquanto revira lixeiras, caçambas e sacos deixados pela rua. Ele não é um catador comum.

O armário que ele tem no quarto, dividido em duas partes, guarda as roupas de um lado e do outro o que ele consegue “garimpar” como objetivo de trabalho em meio ao lixo. Daí vem o apelido Tubarão Du Lixo. Isso por estar onde a maioria das pessoas prefere ignorar: em meio àquilo que causa repulsa e nojo. Entre o que é descartado, ele consegue enxergar o que pode ser transformado e lapidado até virar arte. Não rotula como um trabalho de reciclagem, apenas de mudança de coisas descartas. Mas, afirma que pretende reciclar o próprio ser humano. Trazendo mudanças de postura.

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

Aos 35 anos, Jeferson dos Santos usa o rap e a literatura como formas de desabafo e inspiração e acredita que as culturas de rua são as ferramentas para uma mudança social. No caso dele, o resultado é positivo. O início foi marcado por uma fase difícil, quando ele se tornou mais um desempregado no Brasil. Após ter trabalhado por 11 anos como eletricista na construção civil, foi despedido e se mudou para o litoral norte do Espírito Santo.

Uma nova perspectiva se descortinou diante do acúmulo de lixo. Como a cidade não possuía coleta de lixo, ele mesmo tomou a iniciativa de eliminar a quantidade de resíduos acumulados. “Comecei a desenvolver arte com eles. Usavam garrafas, caixas de leite e embalagens em geral”, lembra. A sequência do trabalho foi aprimorada por meio de um curso técnico que Tubarão fez quando retornou à baixada santista. Especializado em meio ambiente ele optou por trabalhar com o problema do lixo, algo que sempre o incomodou. “Comecei a desenvolver oficinas que abordavam este problema, como o consumo exagerado de produtos e o destino adequado ao lixo. Tudo isso feito de forma sutil e com muita arte”.

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

O Hip-Hop e a literatura marginal se fundem com o trabalho proposto por Tubarão. Quando iniciou a vida na construção civil, conheceu o rap, que passou a ser inspiração. “Me ensinou a viver em São Paulo, me indicou o caminho. Passei a escrever com as idéias borbulhando na mente”. Desta maneira, também no início dos anos 90 lançou um fanzine, onde expunha as próprias ideais e mazelas, sempre passando para o papel o que o incomodava. Feito à maquina de escrever, o “Acorde e Desacorde” trazia colagens de frases e fotos com protestos contra as multi-nacionais, os políticos e a obrigatoriedade do serviço militar. “Eu o fazia catando milho. Isso foi na época da construção civil. Depois, me afastei e desencanei”, conta. Entretanto, a inspiração continua a mesma e no último ano ele teve o prazer de ver o nome no rol de escritores do livro Suburbano Convicto – Pelas Periferias do Brasil, idealizado por Alessandro Buzo e que já está na terceira edição, a cada ano com novos autores.

Questionado sobre este trabalho, atrelado à arte feita a partir do livro, Tubarão se considera um suburbano convicto e agradece a oportunidade. “A sociedade me deu todo seu lixo e fiz dele a minha arte”, dispara. O livro lhe abre portas. “As que não se abrirem, ele arromba. A vida pode nos tomar tudo, menos nosso conhecimento”, completa. Além do livro, Tubarão mantém uma coluna no site Literatura Periférica, que reúne textos de autores da literatura marginal de várias quebradas, espalhadas por todo país.

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

Para Tubarão, o acesso à cultura e  informação são os objetivos, e por isso ele considera fundamental mais incentivo a leitura. “Existem vários projetos pelas quebradas com esse propósito. Uma mente articulada faz mais estrago que qualquer oitão. Hoje muitos já estão escrevendo seus próprios livros e contado sua própria história”. Um exemplo é o trabalho que ele desenvolve e que não se limita a apenas recolher o lixo e lapidá-lo, mas a repassar o conhecimento através de oficinas.

Mesmo sem ter onde expor os objetos feitos,  Du Lixo se engaja no trabalho, que segundo ele mesmo, no início tinha algumas formas pré-estabelecidas. “Minha arte era limitada. Com o passar do tempo fui deixando isso e dando mais liberdade a ela. Hoje não tem regra, nem forma. É livre, totalmente. Mistura-se tudo e tanto na minha produção como nas oficinas, fazemos o que a peça vai pedindo”. O trabalho inclui ainda outros elementos do Hip-Hop como o Graffiti, sempre ligado à pintura. Sempre buscando desenvolver e incentivar a criatividade e habilidade de crianças e jovens, fortalecendo a auto-estima e perspectiva de vida. “não temos a pretensão de transformar ninguém em artista mais sim, que todos possam ter o contato com a arte e através dela possam fazer a diferença lá na frente”.

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

Sem definir o trabalho como social ou ambiental, ele prefere chamar apenas de arte, onde várias manifestações como músicas, vídeos, literatura, artes plásticas e cênicas são trabalhadas na periferia. O objetivo é descobrir, divulgar e formar parceria com outros artistas que buscam, por meio de seus trabalhos, alguma responsabilidade social. “Nas oficinas temos uma metodologia e eu procuro levar informações que considero válidas. Busco usar a transformação dos objetos que antes era lixo e ninguém queria imagina que se transformariam em coisas bonitas, coloridas, com outras formas. Tento justamente passar para as pessoas esta outra visão. Quero que elas enxerguem as coisas de outra forma e se possível positiva”, diz. Para ele, o fundamental é que apliquem isso no dia-a-dia, utilizando todo tipo de resíduos. Entretanto, ele faz uma ressalva e não sabe explicar por que: “costumo evitar um pouco o vidro, mas não sei explicar o motivo”.

Assim, ele continua trabalhando, em meio a arte e a bicos feitos como eletricista, encontra a sobrevivência naquilo que reforma. “Onde me chamam e posso, levo a minha arte. Priorizo lugares que tenham a ver com a proposta”, considera, se esquivando de aproveitadores, que querem se beneficiar da arte feita a partir “Du Lixo”. Por outro lado, esta mesma arte ainda não lhe garantiu sustento, apesar de algumas vezes aparecerem algumas oficinas remuneradas. “Ainda não tenho apoio financeiro e todo gasto de materiais que não encontro no lixo é bancado por nós mesmos”.

 

Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

 

Apesar destas dificuldades, Tubarão reconhece que faz um trabalho único junto as periferias, incluindo a ideologia do Hip-Hop e da literatura periférica. “A maneira que desenvolvemos nosso trabalho, que encaramos, é única. Sempre ressalto isso junto aos meus parceiros, destacando que são o amor e a ideologia que vem junto, que aplicamos que faz a diferença. Tenho muito respeito pelo que faço. Se hoje eu sou o que sou, devo isso ao meu trabalho. Ele me fez conhecer pessoas, lugares, culturas e com ou sem grana, ele acontece”, finaliza.

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Central Hip-Hop



3 Responses to “ Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias ”

  1. Ari Lima disse:

    Parabéns Tubarão, força, inspiração e paz.

  2. Paulo Harkot disse:

    Grande Tubarão!!!
    Muito legal!!!
    Luz, força, fé e muitas realizações.
    Forte Abraço

  3. Tubarão disse:

    Agradecido pelo espaço e pela força…tamo junto!

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