Importação de lixo movimenta a economia

Brasil importa e exporta. Há quem diga que é fundamental para a economia. Rende empregos. Mas o preço pode ser muito alto.

 

 

12/04/2010

Países tentam acabar com comércio de lixo

Brasil importa e exporta. Há quem diga que é fundamental para a economia. Rende empregos. Mas o preço pode ser muito alto.

 

 

Dias e dias cruzando o oceano. Entre o céu e o mar, bilhões de reais em mercadorias flutuam de um país a outro. Na logística do comércio global, nem tudo que atraca no porto parece obedecer à lógica.

“Já recebemos resíduo industrial proibido, resíduo doméstico. Nós não podemos nos tornar um país que recebe descarte de outros países”, diz a chefe do Ibama na Baixada Santista Ingrid Oberg.

No maior porto do Brasil, não há fiscais do Ibama que vistoriem as importações, apenas as exportações. A apreensão de lixo depende de denúncia anônima, ou da desconfiança de fiscais da Receita Federal.

Só quando o sistema de comércio exterior aponta suspeita de fraude na importação, os conteineres são abertos - uma minoria.

“Não temos como fiscalizar toda a carga que chega ao país. Isso não se faz em lugar nenhum do mundo. O comércio tem que fluir. Sempre há o risco de se continuar a chegar lixo no Brasil, infeliz, como há risco de droga continuar chegando”, aponta o inspetor da Receita Federal no Porto de Santos José Antonio Gaeta Mendes.

No mundo inteiro, milhões de toneladas de lixo atravessem as fronteiras todo ano. Boa parte sai de países ricos, que têm coleta seletiva bem desenvolvida, e vai para países em desenvolvimento, como o Brasil, onde a indústria de reciclagem ganha músculos.

Andrew Higham, chefe da unidade de crime da agência ambiental britânica, afirmou que o Reino Unido é líder mundial na luta contra o comércio ilegal de lixo. Disse também que o país não vai permitir o despejo de lixo em países subdesenvolvidos.

Mas o Brasil também é exportador de lixo. Vendemos para fora principalmente peças de computadores e celulares velhos.

“Hoje o maior receptor de sucata eletrônica é a Ásia. Como o pessoal lida com isso? A maioria separa aquilo que interessa comercializar e o que não interessa toca fogo a céu aberto, em um lixão, e toca as cinzas para dentro de um rio”, explica o diretor do Greenpeace Brasil Marcelo Furtado.

O comércio global de lixo tem regras internacionais desde 1992. A Convenção da Basiléia, firmada na Suíça, restringe a exportação de lixo tóxico mas libera a de materiais usados para reciclagem. A lei brasileira segue a mesma linha. Por isso, muita sucata do resto do mundo vem parar por aqui.

“Trazemos essa sucata de fora porque existe uma demanda muito forte no país por essa sucata e a oferta de lata usada de alumínio é menor que a demanda. Por isso a importação”, explica o gerente de fábrica de alumínio Marcelo Csuka.

Suco de El Salvador, cerveja dos Estados Unidos e até de Cuba. O Brasil importa todo esse lixo e paga muito bem por ele. Uma tonelada de lata de alumínio usada chega a custar R$ 2,6 mil.

A indústria de plástico é outra que importa sucata. Os flocos de pet viram tecidos, vassouras e embalagens. As empresas compram pet usado de outros países porque no Brasil apenas 60% das garrafas são coletadas.

O Ministério do Comércio Exterior, que libera a licença de importação, não vê problemas na compra da sucata.

“Alguns desses itens são insumos essenciais para simplificar o processo produtivo, principalmente de siderúrgicas. Tanto assim que alguns países criam dificuldades para exportação desses itens”, afirma o secretário de comércio exterior Welber Barral.

“A importação de sucata revela uma falha muito grave, uma falência das instituições brasileiras e da organização dos municípios para a reciclagem do lixo”, comenta o especialista em lixo e reciclagem Sabetai Calderoni.

Nada contra os negócios, mas em termos de comércio global, o Brasil e o mundo têm coisa melhor para comprar e vender.

 

Bom Dia Brasil



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