Baía de Todos os Santos

Juntamente a uma equipe, resolvemos elaborar um estudo diagnosticando os efeitos deletérios dos resíduos sólidos e suas interações com a biodiversidade em três costões rochosos da Baía de Todos os Santos, sendo locais muito conhecidos e contemplados por baianos e turistas.

 

 

Gustavo F. de Carvalho-Souza

07 de junho de 2010 

O lixo marinho na Baía de Todos os Santos

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

O estado da Bahia possui a maior faixa costeira do Brasil, e apresenta em seu contorno e fisiografia, uma série de enseadas, ilhas, penínsulas, canais, estuários, baías, ambientes recifais e praias, determinados por uma história geológica.

Desde a época do descobrimento até os dias atuais, estas áreas vêm passando por profundas modificações antropogênicas na paisagem, dentre a ocupação urbana (desordenada), atividades marítimas, industriais e de lazer que condizem a usos múltiplos da zona costeira, além de preocupantes como a contaminação por metais pesados e os riscos da prática da pesca predatória e com explosivos. No entanto através de todo esse desenvolvimento e utilização encontra-se a produção e descarte de rejeitos finais, sendo estes bem conhecidos do cotidiano de qualquer ser humano: o lixo.

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

E para onde vai o “descuido” deste material? Acredito que muitos já sabem, pois acompanham esta homepage, assim como o blog da Prof. Monica Costa (UFPE) ou a Coluna Lixo Marinho do Portal EcoD. Os mares e oceanos de que tanto admiramos e gostamos dar aquela relaxada de final de semana ou aquele mergulho, recebem estes descartes, esgotos domésticos e industriais, descargas pelos sistemas fluviais, principalmente pós enchentes.  

Este problema conhecido atualmente como lixo marinho, ou marine debris vem se tornando familiar ao grande público e preocupando a cabeça de muitos, passando pelos corredores de inúmeros órgãos governamentais e privados.

 

Organismos recifais e suas interações com resíduos sólidos na Baía de Todos os Santos, Brasil. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Diversas instituições do terceiro setor vêm de forma corajosa realizando dispendiosos esforços e infelizmente “ainda” não sendo suficientes, para vencer esta batalha. Como alguns exemplos podemos citar a Global Garbage e suas diversas ações nos mostrando esta problemática com materiais impressos e virtuais, e dentre estes os famosos produtos de origem estrangeira e o “LightStick” (atratores luminosos) encontrado principalmente nas praias do litoral norte; a Joguelimpo que a mais de 10 anos realiza campanhas de limpeza de praias e sensibilização ambiental especialmente com crianças e jovens, e a Biota Aquática que a 4 anos desenvolve o Cleanup Day Bahia (dia mundial de limpeza de praias), sem contar ainda com os esforços individuais de pesquisadores e entusiastas da conservação marinha como por exemplo o mergulhador e biólogo Francisco Pedro e o surfista Bernardo Mussi divulgando o “fundo da folia”.

Juntamente a uma equipe, resolvemos elaborar um estudo diagnosticando os efeitos deletérios dos resíduos sólidos e suas interações com a biodiversidade em três costões rochosos da Baía de Todos os Santos, sendo locais muito conhecidos e contemplados por baianos e turistas.

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

A Baía de Todos os Santos (BTS) é o segundo maior acidente geográfico da costa do Brasil e apresentando um mosaico de paisagens de relativa importância biogeomorfológica, histórica e econômica, envolvendo 12 municípios com concentração demográfica elevada, como Salvador (maior aglomerado urbano do Nordeste), e estando enquadrada como Área de Proteção Ambiental (APA) desde sua criação pelo decreto estadual n° 7.595 de 05 de junho de 1999, sendo esta uma das menos restritivas categorias de proteção de unidades de conservação (UC).

Dentre os costões rochosos que estabelecemos neste estudo, encontram-se o Porto da Barra, Farol da Barra e Yacht Clube / Marco Polo. Realizamos então amostragens através de censos visuais subaquáticos, utilizando dois métodos em mergulho livre, onde esta técnica apresenta um baixo custo e torna-se aplicável a ambientes recifais costeiros. Os métodos adaptados foram o protocolo AGRRA (Atlantic and Gulf Rapid Reef Assessment) e o RDC (Rover Diver Census). No primeiro estendeu-se transectos em linha nas intermediações do costão, enquanto que o segundo consiste em uma busca intensiva aleatória durante tempo determinado. Foram qualificados e quantificados os resíduos sólidos e suas interações com a fauna marinha. Todo o resíduo submerso com tamanho a partir de 2 cm foi registrado e removido manualmente para evitar re-amostragens quantitativas e posteriormente acondicionados em sacos de tela.

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Resíduos sólidos encontrados nos costões rochosos da Baía de Todos os Santos associados a descarte intencional, perdas ocasionais e derivados da pesca. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Como resultados, diagnosticamos que estes ambientes recifais encontravam-se contaminados por resíduos sólidos em escalas de impacto, sendo o plástico o item mais estressor e tendo o Porto da Barra como a área mais contaminada. É consideravelmente possível extrapolar esta situação para os demais ambientes recifais urbanos do estado (incluindo os ambientes insulares), evidenciando a problemática nestes ecossistemas. Percebeu-se que estes resíduos sólidos da BTS estão associados ao descarte intencional, perdas por descuido e advindos da pesca, sendo todos de origem local, ou ainda garrafas, abadás, cestas, espelhos e afins de diversos festejos populares na cidade como o Carnaval, festa de Yemanjá e de finais de ano. Sugere-se a utilização de alternativas mais ecológicas para estes itens realizando uma integração da cultura ao meio ambiente. Foram encontradas interações dos resíduos sólidos com a fauna marinha local sendo observados em alguns casos registros inéditos entre resíduos sólidos bentônicos e organismos recifais.

 

Organismos recifais e suas interações com resíduos sólidos na Baía de Todos os Santos, Brasil. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Percebe-se a partir do exposto que o lixo marinho está causando diversos impactos à paisagem, a fauna, as atividades recreativas e ao próprio comércio, proporcionando perdas de cunho, social, econômico e ambiental.

Então a muito que se fazer, contamos com toda ajuda para contribuir com o conhecimento dos processos globais do lixo marinho e extinguirmos está “espécie”, portanto participem, seja retirando o seu lixo ao sair das praias e direcionando em locais corretos.

A vida marinha agradece!

 

Organismos recifais e suas interações com resíduos sólidos na Baía de Todos os Santos, Brasil. © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

Gustavo Freire de Carvalho-Souza é Biólogo, mestrando em Geologia Marinha, Costeira e Sedimentar no Instituto de Geociências/UFBA. Seu projeto contou com o apoio da Biota Aquática, Centro ECOA/UCSal e Lacerta Ambiental.

 

Galeria de fotos

Slideshow

Fotos: © Gustavo F. de Carvalho-Souza

 

pdficon_smallPoluição Marinha em ambientes recifais na Baía de Todos os Santos: composição, síndromes ecológicas e aspectos conservacionistas

 

 

Link para Twitter: http://bit.ly/baia-de-todos-os-santos



5 Responses to “ Baía de Todos os Santos ”

  1. cristiane brim thomy dultra disse:

    preciso do contato de vcs, vou fazer exposição de fotos sobre degradação ds praias de salvador
    obrigada

  2. Vanessa Dantas disse:

    Muito bom o texto!
    Gostaria de ler o texto na integra, mas não consegui baixar o link em pdf exposto!
    Gostaria de recebe-lo!

    obrigadah!

  3. Parabéns Guga e todo o pessoal do Globalgarbage, excelente matéria!

    Abraços.

  4. Antonio Ormundo disse:

    Mouto bom trabalho
    algem tem que faser o trabalho (sugo).

    Paraabens

    Antonio Ormundo- St° Cruz Crabalia
    OBS; Gostaria de receber Bolitim

  5. Muito boa a abordagem e o estudo. Continuo com o sonho de transformar parte da Baia de Todos os Santos, mais especificamente a área do Forte São Diogo até o Forte de Santo Antonio (Porto até o Farol) no PARQUE MARINHO DOS FORTES da Baia de Todos os Santos.
    Uma maneira de conservar a área e fomentar atividades ligadas aos esportes, ao lazer saudável e ao turismo de qualidade.
    Parabéns pela matéria.
    Bernardo Mussi

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