Mais plástico do que plâncton nos mares

Todas as manhãs o mesmo ritual: ainda sonolento enfiar os pés nas pantufas, jogar o roupão de poliéster displicentemente por cima dos ombros, uma leve pressão sobre o tubo plástico de pasta de dente e, com a escova, limpá-los.

 

 

ESTRÉIA: O LADO OBSCURO DOS MATERIAIS SINTÉTICOS 

Mais plástico do que plâncton nos mares 

Segundo especialistas da ONU, a cada quilômetro quadrado do oceano, existem 18.000 pedaços de lixo plástico. Um perigo para o meio ambiente.

 

Plastic Planet

 

Por Sabine Danek
25 de fevereiro de 2010  

HAMBURGO. Todas as manhãs o mesmo ritual: ainda sonolento enfiar os pés nas pantufas, jogar o roupão de poliéster displicentemente por cima dos ombros, uma leve pressão sobre o tubo plástico de pasta de dente e, com a escova, limpá-los. Já nos primeiros minutos do dia, ele - o plástico - está presente em nossas vidas, sendo impossível nos imaginar sem o mesmo. Vivemos em um mundo plastificado, afirma o cineasta austríaco Wiener Boote, desenvolvendo a idéia em seu filme “Plastic Planet”. O longa, sobre nosso dia-a-dia sintético e suas marcas deixadas no meio-ambiente, estreou na Alemanha no último dia 25.

Dentro de um período inferior a um século, os materiais plásticos (fabricados à partir do petróleo) ganharam o mundo consumista e, infelizmente, também a natureza. Em 1862, Brite Alexander Parkes criou o primeiro tecido em parte sintético, feito de celulose e nitrato. Em 1922, o químico alemão - e mais tarde ganhador do Prêmio Nobel - Hermann Staudinger descobriu materiais formados por cadeias de milhares de pequenas moléculas unidas umas às outras, chamando-as de Super Polímeros. Seu colega, mais jovem e norte-americano, Wallace Hume Carothers retomou a descoberta e criou materiais mais modernos, como o Nylon, Acrílico, Neoprene e Polietileno. Nas década de 30 o caminho para a produção em massa estava livre, uma vez que o petróleo passou a ser produzido.

 

 

© Thomas Kirschner www.thomaskirschner.com

 

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Hoje em dia, a indústria plástica gasta algo como 800 bilhões de euros para desenvolver, produzir e fabricar uma quantidade muito além da imaginação de bens encontrados em todas as partes do dia-a-dia, desde binquedos de criança até decoração para túmulos. Mas os polímeros ficam no mundo por muitas centenas de anos -um tempo bem maior do que o utilização inicial do produto pelo ser humano. E assim, o material que permite a fabricação de praticamente tudo, torna-se um vilão, poluindo paisagens e oceanos.

Isso acontece, principalmente, devido aos mais leves e tomados como insignificantes, como as embalagens plásticas. Elas passeiam pelas praias, tremulam penduradas às árvores, convivem ao lado da civilização nos arbustos do Saara. E elas flutuam pelos mares. O programa da ONU de Meio Ambiente estima haver 18.000 peças de lixo plástico por quilômetro quadrado no oceano. A maior parte desses detritos se encontra abaixo da superfície, desaparecendo aos olhos humanos mas não à natureza, sendo que 70 por cento acaba no fundo oceânico. Um pedaço grande de lixo divide-se em pequenas partes, que, muitas vezes, por um longo tempo flutuam na água, sendo confundidas com plâncton pelos peixes - que morrem de estômago cheio. “Para cada parte de plâncton, existem 6 partes de plástico” diz no filme o oceanógrafo e defensor do meio ambiente, o americano Charles Moore. Ele levou Werner Boote em seu barco de pesquisa “Algalita” ao centro da poluição no Pacífico- Norte, a sudeste do Havaí. Lá há um imenso redemoinho com pequenos pedaços de lixo plástico, o North Pacific Gyre: no local existem 60 partes de detritos para uma de plâncton.

 

 

© Thomas Kirschner www.thomaskirschner.com

 

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Grande parte disso vai para os estômagos das aves marinhas. “Longe da civilização e do turismo, mais ou menos na costa do território dinamarquês nas Ilhas Faroé, pesquisadores encontraram pedaços de plástico nos estômagos de mais de 90 dos pássaros mortos” a Gesellschaft zum Schutz der Meeressäugertiere, a GSM (ou Sociedade de Proteção aos Mamíferos Marinhos, em português). Mais de um milhão de aves marinhas e milhares de tartarugas morrem todos os anos em decorrência do lixo plástico, afirma a GSM, e até mesmo os pais alimentam os filhotes com o material, confundido-o com comida.

O mundo plástico também deixa há algum tempo marcas no prório homem: tanto as desejadas - como o silicone enxertado nos seios femininos - quanto o contrário, através de poluentes no sangue, fígado, cérebro e órgãos sexuais.

Bisfenol A, ftalatos, nonilfenóis e acetaldeídos são alguns dos poluentes e grupos de produtos tóxicos feitos de material sintético e que causam danos ao meio ambiente e podem levar à problemas de saúde. A exemplo do Bisfenol A, mostrado no filme: de uso muito difundido, ele é a base do policarbonato, que é utilizado para a produção de louça plástica e mamadeiras. O elemento não é um veneno poderoso, mas faz parte do grupo de substâncias que podem ter efeitos hormonais - como o estrogênio. Em ratos de laboratório, ele alterou o material genético.

 

 

© Thomas Kirschner www.thomaskirschner.com

 

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Para proteger o homem dos efeitos negativos do mundo plástico, existe para o bisfenol A, ftalato e outros elementos, quantidades máximas para o consumo diário ou liberação no meio ambiente, embora, de qualquer maneira, ainda não sejam conhecidos os efeitos de qualquer material sintético, uma vez que ainda não foram devidamente pesquisados.

À moda do provocante diretor Michael Moore, Werner mostra aos espectadores - de forma chocante e sem papas na língua - as imagens do planeta de plástico e seus materiais que são onipresentes no dia-a-dia. Todos os dias, logo após levantar.

 

 

© Thomas Kirschner www.thomaskirschner.com

 

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O site do filme:
www.plastic-planet.de

 

Matéria publicada no jornal alemão Hamburger Abendblatt no dia 25 de fevereiro.
Tradução: Marina Harkot



One Response to “ Mais plástico do que plâncton nos mares ”

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