O grau de sujidade da praia de Itaquitanduva, São Vicente

Estranho pensar que em uma praia situada em uma APA e em um parque estadual esteja tão suja. O fato é que nem mesmo as leis que resguardam o local são capazes de impedir que os rejeitos das atividades humanas se acumulem em suas areias.

 

 

Santos, 17 de setembro de 2010 

O grau de sujidade da praia de Itaquitanduva, São Vicente  

É possível que uma praia em um parque estadual esteja suja? 

 

Praia de Itaquitanduva. © Google Earth

Praia de Itaquitanduva. © Google Earth

 

Gerson Fernandino de Andrade Neto 

A princípio pode nos parecer estranho imaginar que haja uma quantidade considerável de lixo em uma praia localizada dentro de um parque estadual onde o fluxo de usuários é menor e o aceso à praia, mais limitado. No entanto não é isso que os dados mostram.

Itens de lixo podem ser encontrados em praticamente todas as praias do mundo, por mais remotas e distantes das possíveis fontes essas podem estar. Na praia de Itaquitanduva não poderia ser diferente. Pensando nisso, e no fato de não haver limpeza de praia pública no local, o que mascararia os resultados, essa praia foi escolhida como área de estudo para meu projeto de TCC - Trabalho de Conclusão de Curso.

Localizada na Baixada Santista, no município de São Vicente - uma das cidades costeiras mais urbanizadas do estado - e próximo ao Porto de Santos, a Praia de Itaquitanduva faz parte do Parque Estadual Xixová-Japuí - PEXJ - e está inserida na APA Litoral Centro - Setor Carijó. Possui cerca de 270 metros de extensão, constituída por areia de granulometria média e delimitada em suas duas extremidades por costões rochosos. O acesso à praia é limitado, nem tanto pela fiscalização do Parque, mas pelo fato de ser necessária uma caminhada de aproximadamente 30 minutos ao longo de uma trilha de 600 metros por entre a mata. Devido à incidência constante de ondas e sua beleza natural, é uma praia muito frequentada por surfistas. Nela, há também a presença constante de pessoas - mesmo em número reduzido - que passam o dia no local, principalmente durante os feriados e finais de semana.

 

A praia de Itaquitanduva vista de cima e os pontos de coleta. © Google Earth

A praia de Itaquitanduva vista de cima e os pontos de coleta. © Google Earth

 

O estudo realizado teve como objetivo avaliar o grau de sujidade dessa praia. Ao todo foram amostrados 5 pontos nos quais delimitou-se um transecto  de comprimento variável que se estendia desde o máximo do espraiamento do local no momento, até o primeiro obstáculo - cordão dunar, vegetação ou costão - e largura de dez metros. Neles, foram coletados todos os itens de lixo que foram classificados e quantificados de acordo com suas características.

Para classificar o grau de sujidade dos pontos, relacionou-se o número de itens coletados com área do transecto estabelecendo uma comparação entre dois índices de classificação: o Índice Geral e o Clean Coast Index - CCI. O CCI é um índice desenvolvido por pesquisadores israelenses para classificar suas praias quanto seu grau de sujidade, funcionando como excelente instrumento de gerenciamento de zonas costeiras naquele país. Tal índice considera apenas os itens plásticos em função da área amostrada, o que é justificado pelo fato de que cerca de 85% de todo lixo encontrado no ambiente é composto por esse material. Com base nessa informação, o CCI foi utilizado a fim de avaliar a aplicação do CCI na zona costeira brasileira. Seu uso como parâmentro de avaliação do grau de sujidade se mostrou, assim como no caso do estudo realizado na Costa dos Coqueiros, na Bahia, que utilizou o mesmo índice, possível.

 

Detalhe da disposição do lixo na linha de deixa da maré em um ponto coletado. © Rafael Vilalva

Detalhe da disposição do lixo na linha de deixa da maré em um ponto coletado. © Rafael Vilalva

 

Em todos os pontos amostrados foi encontrado lixo. A maior concentração de lixo foi de 3.18 itens/m² e a menor, 0.51 itens/m². Dos cinco pontos amostrados, três foram classificados como extremamente sujo (ES), um ponto foi classificado como sujo (S) e um ponto como moderado (MO). Do total de itens recolhidos, 82,16% é representado pela classe dos plásticos e os 17,84% restantes correspondem à somatória de todas as outras classes de materiais amostrados. Impressiona constatar que 41,26% de todos os itens plásticos coletados são constituídos por tampinhas de garrafas, sendo o item de maior expressividade, seguido por hastes de cotonetes e pirulitos, 39,05%; Os pellets, apesar de presentes, foram tratados à parte no trabalho e, portanto, não estão incluídos nos dados acima.

Foi possível observar um gradiente do ponto #1, para o ponto #5. Isso permite inferir que o padrão de transporte longitudinal seja do ponto #5, mais a nordeste, para o ponto #1, mais a sudeste, havendo maior deposição neste último. A massa total do lixo coletado foi 22,5 kg e o número total de itens coletados foi 1.811 constituídos, principalmente por fragmentos de plástico (< 5cm) e, mais notoriamente, as tampinhas de garrafas e hastes de cotonetes.

 

Detalhe do material coletado em um ponto. © Rafael Vilalva

Detalhe do material coletado em um ponto. © Rafael Vilalva

 

Acredito que as hastes de cotonetes e tampinhas plásticas de garrafas provêm das habitações desconformes - palafitas - localizadas no interior do estuário de São Vicente. Sabe-se que tais locais não são contemplados com serviços de coleta de lixo e tratamento de esgoto. Logo, todos seus efluentes gerados são lançados diretamente na água e boa parte dos resíduos acaba também atingindo o ambiente, seja por ação dos ventos e enxurradas, ou quando deliberadamente lançados no mar.

Boa parte desses resíduos flutua e, uma vez na água, são levados ao sabor das marés e correntes costeiras para fora da baía de São Vicente onde então podem eventualmente vir a se depositar na costa.

Estranho pensar que em uma praia situada em uma APA e em um parque estadual esteja tão suja. O fato é que nem mesmo as leis que resguardam o local são capazes de impedir que os rejeitos das atividades humanas se acumulem em suas areias. O lixo lá encontrado provém de fontes domésticas e não de usuários do local; muito provavelmente, oriundo das áreas mais interiores do estuário de São Vicente e até mesmo da parte continental do município trazido por marés e correstes costeiras e depositando na praia. Tal conclusão reforça a ideia de que somos responsáveis pelo que fazemos com o lixo que produzimos, uma vez que as consequências do descarte inadequado podem refletir não apenas no local onde vivemos, mas em locais bem distantes de nossos lares. Grande parte do lixo ali encontrado foi gerada por pessoas que talvez nunca tenham frequentado o local e não vêem - e nem verão - e nem sentem as consequências de seus atos, o que dificulta os esforços de conscientização.

Gerson Fernandino de Andrade Neto é oceanógrafo pela Unimonte.

 

pdficon_small Análise quali-quantitativa de lixo de praia com aplicação do clean-coast index em uma praia do litoral centro-sul do estado de São Paulo, Brasil 

pdficon_small O Clean Coast Index é um bom índice para indicar a poluição por lixo marinho? - Estudo de caso na Costa dos Coqueiros, BA

 

Leia também

Alunos da Unesp São Vicente recolhem 500 quilos de lixo da praia de Itaquitanduva



3 Responses to “ O grau de sujidade da praia de Itaquitanduva, São Vicente ”

  1. Adriano disse:

    Concordo com os locais abaixo…
    É fácil trazer o mantimento, usar e não ter aonde descartar ali… banhistas, surfers e qualquer outro frequentador nao tem lugares para deixar o seu lixo e tão pouco existe coleta de resíduos, muita falta de responsabilidade inclusive da prefeitura que deveria de enxergar melhor as belezas de nossas praias… O problema dos favelados das palafitas não é só de responsabilidade de São Vicente, se bem que Santos, Guarujá, Cubatão e Praia Grande, tb tem suas favelas e que tb descartam seus resíduos nos canais ou seja: O lixo que é descartado em Santos por exemplo é encontrado em SV e vice-versa, pois ele é carregado pelas marés e pelo vento até chegar na área costeira. Não é problema apenas municipal e sim regional. Infelizmente quase nada é feito pelas cidades citadas já que é de responsabilidade de todas elas. ” Como podem querer ainda desenvolvimentos? O Pré-Sal vai trazer apenas mais problemas ao meio ambiente já que a maior parte desses resíduos são derivados do Petróleo!” Grande parcela da culpa está na Petrobras e na SABESP que mascaram tudo para que tenham sempre aumento de seus lucros … fiquem expertos com eles…

  2. GUSTAVO OLIVEIRA disse:

    NASCI NO JAPÚI E APRENDI A NADAR NAQUELAS ONDAS PESQUEI E VARIAS VEZES RETIREI OBJETOS DA AREIA DEICHADO POR SURFISTAS E BANHISTAS VARIAS VEZES NÓS PESCADORES ESPOTIVO(NÃO PREDADORS OU DESTRUIDORES DA NATUREZA) EVITAMOS O ACONTECIMENTO DE ASSALTOS NAQUELA AREA AGORA SOMOS PROIBIDOS DE NOS DIVERTIR EM UM LOCAL QUE SEMPRE CUIDAMOS POIS PESCARIA DE CANIÇO NÃO APABA COM NADA O ACABA COM TUDO É ESSA TURMA QUE PASSA O DIA TODO NA AREIA FAZENDO SUJEIRA DE DEICHANDO NA AREIA (PÓIBIDO PRA UM PROIBIDO PRA TODOS)

  3. PAULO ROBERTO disse:

    CONHEÇO A PRAIA DO ITAQUITANDUVA A +- 40 ANOS ERA UMA PRAIA POUCO FREQUENTADA POR TURISTAS ESURFISTAS E MUITO FREQUENTADA POR PESCADORES DA REGIÃO A PRAIA ERA LIMPA E BELA SEM ASALTOS E DROGAS AGORA PROIBIDA PARA PESCADORES SE TORNOL EXCLUSIVA PARA SURFISTAS E BANHISTAS E SE TORNOL ESTE LIXO QUE PODEMOS VER FALAVAM QUE OS PESCADORES DESTRUIAM A PRAIA E O QUE VEMOS É CONTRARIO POIS PESCADORES LIMPAVAM A PRAIA E POLCO USAVAM ELA POIS O INTERECE DOS PESCADORES SÃO AS PEDRAS E NÃO A AREIA AGORA SÓ SE HOUVI FALAR EM ASALTOS DROGAS E LIXO SE A PRAIA É UM PARQUE ESTADUAL DEVE SER PROIBIDA PARA TODOS E NÃO SOMENTE PARA PESCADORES

Leave a Reply