Avaliação da percepção sobre lixo marinho: ferramenta para a gestão do problema

No estudo, os usuários demonstraram conhecimento dos riscos associados à presença do lixo na areia, principalmente relacionados com a atração de vetores de doenças, no entanto, isso não parece ser suficiente para desencadear uma atitude ambientalmente correta e estabelecer a coerência entre a percepção e o comportamento.

 

 

Natal, 30 de setembro de 2010

Avaliação da percepção sobre lixo marinho: ferramenta para a gestão do problema

 

Descarte irregular de lixo na praia da Boa Viagem (Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

Descarte irregular de lixo na praia (Boa Viagem, Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

 

Maria Christina Barbosa de Araújo

É um consenso de que o acúmulo de lixo nas praias é o principal causador da degradação visual a que os ambientes costeiros estão submetidos. A perda paisagística pode acarretar a diminuição do número de visitantes, principalmente turistas, com prejuízos óbvios para a economia local. Além dos riscos para a biota marinha, fato largamente comprovado, a presença do lixo na areia das praias pode afetar também os frequentadores, tornando-se dessa forma um problema de saúde pública.

Embora a literatura destaque a importância da fonte ribeirinha para a contaminação de praias por lixo marinho, a presença maciça de usuários também contribui de forma significativa para o agravamento do problema. A compra de alimentos e o uso de descartáveis nas praias são os principais fatores que atuam na geração de resíduos de origem comprovada nos usuários.

A satisfação do usuário tem se tornado um termômetro do potencial da praia como recurso turístico. Pesquisas têm demonstrado que o cenário (belezas naturais associadas a boas condições ambientais) é um dos principais componentes responsáveis pela escolha de uma praia para visitação, e que existe uma tendência de rejeição a lugares degradados. De acordo com o National Healthy Beaches Campaign, embora usuários busquem encontrar praias limpas, seguras e saudáveis para suas atividades, infelizmente muitas vezes as encontram superlotadas e severamente poluídas, sendo frequentemente responsáveis por esse cenário.

As praias urbanas no Brasil quase sempre são intensamente utilizadas por diferentes grupos sociais com interesses múltiplos e diversos. O baixo custo desse tipo de lazer e o clima ameno favorecem essa prática, especialmente nas férias escolares e períodos de alta estação.  

A avaliação do comportamento dos usuários de praias em relação ao lixo que produzem e sobre a percepção que têm com relação ao problema é uma importante ferramenta que pode ser usada como subsídio, em conjunto com outras abordagens, nas ações preventivas, de minimização ou solução da questão da poluição de ambientes costeiros por lixo marinho. Esse tipo de pesquisa tem sido usado principalmente como forma de investigação preliminar em propostas de educação ambiental, visando melhor direcionamento das ações.

Embora diferentes praias possuam características próprias, tanto do ponto de vista ambiental, como do social, sendo frequentadas por públicos distintos, a reação humana frente a ambientes considerados poluídos é muito semelhante, não diferindo muito de um local para outro. 

Em 2009 uma pesquisa com usuários (banhistas e comerciantes) enfocando a questão do lixo marinho foi realizada na praia da Boa Viagem, Recife-PE, visando avaliar o comportamento e a percepção dos diferentes grupos sobre a questão. A praia de Boa Viagem é o único espaço litorâneo da cidade do Recife, a qual possui uma população de mais de 1.500.000 habitantes, sendo portanto, um local intensamente utilizado praticamente durante todo o ano. A praia é limpa diariamente por uma equipe de garis que atuam durante o dia, e por um sistema mecanizado, utilizado durante a noite.

O estudo foi realizado com usuários em duas áreas da praia com características distintas, através de dois questionários, um específico para os banhistas e outro para os comerciantes; abordando o perfil do indivíduo e percepção do mesmo sobre o problema, incluindo sugestões mitigadoras.  

A maioria dos usuários questionados na pesquisa demonstrou uma preocupação com o destino do lixo produzido, e apenas uma minoria alegou descartar o lixo diretamente na areia sem preocupação com seu destino. Apesar de os usuários terem alegado a preocupação com o lixo, na prática isso não tem sido observado na praia, especialmente nos meses de verão, fato comprovado pela enorme quantidade de lixo com origem no usuário presente na área, especialmente ao final do dia, nos finais de semana. Conchas de ostra são largadas na areia; sacos de lixo são abandonados sem recolhimento; inúmeros itens ficam espalhados diretamente na areia, a espera do que ocorrer primeiro: a atuação dos garis ou a ação da maré alta. Essa situação desafia os serviços de limpeza utilizados na área, fazendo com que estes se tornem apenas paliativos na manutenção da praia limpa.

 

Lixo ensacado e abandonado na areia da praia (Boa Viagem, Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

Lixo ensacado e abandonado na areia da praia (Boa Viagem, Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

 

Conchas de ostras descartadas diretamente na areia da praia (Boa Viagem, Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

Conchas de ostras descartadas diretamente na areia da praia (Boa Viagem, Recife-PE). © Marcelo José Dias Filho

 

No estudo, os usuários demonstraram conhecimento dos riscos associados à presença do lixo na areia, principalmente relacionados com a atração de vetores de doenças, no entanto, isso não parece ser suficiente para desencadear uma atitude ambientalmente correta e estabelecer a coerência entre a percepção e o comportamento. Embora praticamente todos concordem que a responsabilidade pela manutenção da praia limpa deve ser de todos, usuários e poder público, na prática a parceria não se concretiza.

Maria Christina Barbosa de Araújo. Bióloga, Especialista em Gestão Costeira, Mestre e Doutora em Oceanografia. Docente do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN. Estuda questões relacionadas ao lixo marinho desde 2000. 

 

pdficon_small Avaliação da percepção pública na contaminação por lixo marinho de acordo com o perfil do usuário: Estudo de caso em uma praia urbana no Nordeste do Brasil



2 Responses to “ Avaliação da percepção sobre lixo marinho: ferramenta para a gestão do problema ”

  1. Iza disse:

    O brasileiro até hoje,com tanta informação,continua cada vez pior.Não tem cuidado nem mesmo com o lugar onde mora. Ver isso me deixa frustrada só de ver o quando as pessoas estão acabando com as praias desse país lindo!!
    Não tem educação,um bando de porcos… deveriam tomar banho no chiqueiro e nao na praia.

  2. Muito bom o estudo. Fato é que não está havendo força suficiente para barrarmos esta falta completa de educação de TODOS que se utilizam da praia tanto para atividades de lazer quanto para o comércio.
    Estamos com um problema sério aqui na Praia do Porto da Barra em Salvador e a julgar pela visão dos poderes públicos, a bandalheira deve continuar por muito mais tempo. Não há fiscalização alguma na exploração comercial dos espaços e na realização de grandes eventos que potencializam todos os problemas da área. Já estamos pensando em uma ideia absurda porém super eficaz que seria a privatização da praia para suprimir a falta ou a incompetência do poder público em cuidar de um bem comum tão importante da cidade.E há dinheiro do povão para isso a julgar pela quantidade de cerveja e outras iguarias que são consumidas de montão por esta turma em um dia de praia. O que são dois reais para entrar numa raia? Nem o preço de uma lata de cerveja…PRIVATIZAR ALGUMAS PRAIAS SENSÍVEIS É A SOLUÇÃO DE CURTO PRAZO! Na base da EDUCAÇÃO a coisa vai levar mais uns 20 anos para melhorar…

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