Distribuição de lixo marinho ao longo da Costa dos Coqueiros, litoral norte da Bahia

Ao todo percorremos 142 km pelas praias do litoral norte da Bahia. Foi amostrado um total de 35 pontos; 25 pré-determinados – de cinco em cinco quilômetros a partir do quilômetro zero-, e outros 10 nas bocas de barras dos rios que cruzávamos. 

 

 

Santos, 25 de outubro de 2010 

Distribuição de lixo marinho ao longo da Costa dos Coqueiros, litoral norte da Bahia

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Por Andréa Oliveira, Camilla Borio e Gerson Fernandino de Andrade Neto 

Quando precisamos avaliar a qualidade de algo é necessário o uso de indicadores como os que são usados para avaliar a qualidade de vida nas cidades, ou a qualidade do ar. Um exemplo muito conhecido é o indicador usado para verificar a balneabilidade da água do mar, onde a bactéria Escherichia coli, que vive na flora intestinal humana, é usada para indicar a presença de esgoto próximo. Assim, quanto maior a população de E. coli na água, maior a contaminação por esgoto. A grande vantagem do uso de indicadores é que eles simplificam as análises e a interpretação dos resultados.

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

A presença de lixo no ambiente marinho, diferentemente da balneabilidade da água, é um problema facilmente visualizado, o que leva as pessoas a afirmarem se uma praia está limpa ou suja só de olhar. Mas isso é muito subjetivo, por isso a necessidade de quantificar e criar um índice padronizado da presença de lixo marinho, o que reduz a subjetividade e facilita o monitoramento e as comparações espaciais do parâmetro.

Muitos trabalhos fazem a quantificação de lixo marinho considerando todos os tipos de itens, ou seja, vidro, metal, plástico e madeira processada, pela área amostrada. Essa forma, embora eficiente para a limpeza de praias, não é muito eficiente como indicadora da presença de lixo marinho. Preocupados com isso, em 2007 pesquisadores ligados ao Ministério do Meio Ambiente de Israel propuseram uma metodologia que usa apenas itens plásticos como indicadores da poluição por lixo marinho nas praias e costas, conhecido como Clean Coast Index (CCI), ou Índice de Limpeza Costeira. 

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Em novembro de 2009, como parte de uma caminhada promovida e organizada pela Global Garbage para o estudo de lixo marinho no litoral norte da Bahia, decidimos avaliar a quantidade de lixo marinho e verificar se o Clean Coast Index era um bom índice para os tipos de resíduos encontrados na região. 

Ao longo de todo o percurso que fizemos - da vila de Mangue Seco, extremo norte do estado, até a Praia do Forte, cerca de 60 km da capital, Salvador - o lixo se mostrou um companheiro desagradável e constante. Itens diversos como lâmpadas, garrafas PET, galões de óleo, embalagens de margarina, bóias de pesca, lightsticks, pellets, pedaços de redes e linhas de pesca, dentre outros, são encontrados muito frequentemente no local. No entanto, o que mais chama a atenção é a origem desse material: boa parte do lixo lá encontrado é de bandeira estrangeira - muito provavelmente oriundo de navios que lançam, ilegalmente, lixo ao mar, que as correntes costeiras e ventos acabam levando para a praia. 

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Ao todo percorremos 142 km pelas praias do litoral norte da Bahia. Foi amostrado um total de 35 pontos; 25 pré-determinados - de cinco em cinco quilômetros a partir do quilômetro zero -, e outros 10 nas bocas de barras dos rios que cruzávamos.

Em cada ponto foi traçada, com auxílio de uma trena, uma linha que se estendia desde o máximo do espraiamento do local no momento, até o primeiro obstáculo - cordão dunar, vegetação ou falésia. Essa linha se estendia por dez metros longitudinalmente no sentido da praia e descia novamente até o máximo espraiamento. Todo o lixo encontrado foi quantificado e classificado.

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Para determinar o grau de “sujidade” - como decidimos chamar o indicador da quantidade de lixo marinho, para ressaltar o aspecto negativo de sua presença - de cada ponto, foram utilizados comparativamente os índices “Geral” e o CCI, onde o primeiro considera todos os itens presentes no transecto, e o segundo apenas os itens plásticos. Esses valores eram divididos pela área do transecto resultando no índice.

Dois, dos 35 pontos totais, não foram amostrados, pois foram atingidos no período noturno. Considerando os resultados, dos 33 pontos amostrados dezoito foram classificados como muito limpas, doze como limpas, uma como moderada, uma como suja e uma como extremamente suja. Enquanto os resultados do CCI, 23 foram classificados como muito limpas, sete como limpas, uma como moderada, uma como suja e uma como extremamente suja. 

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

Houve uma sutil discrepância nos índices em quatro pontos, suficiente para que mudassem da classe muito limpa (no CCI) para limpa (no geral). Um dos pontos apresentou uma considerável diferença entre os índices CCI e total, 0,02 e 0,15 respectivamente, devido a uma concentração pontual de carvão, que, naturalmente, não é considerada no CCI.

Com base nesses resultados, chegamos à conclusão que o uso do plástico como indicador da quantidade de lixo marinho, assim como a E.coli, para a balneabilidade é um bom indicador para a região. Mas, como todo indicador, seus resultados devem ser sempre acompanhados de senso crítico. 

Andréa de Lima Oliveira é oceanógrafa e mestranda em oceanografia no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Camilla Borio é graduanda em oceanografia na Unimonte.
Gerson Fernandino de Andrade Neto é oceanógrafo formado pela Unimonte.

 

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

Litoral norte (Costa dos Coqueiros) da Bahia. © Fabiano Prado Barretto/Global Garbage

 

pdficon_small O Clean Coast Index é um bom índice para indicar a poluição por lixo marinho? – Estudo de caso na Costa dos Coqueiros, BA



3 Responses to “ Distribuição de lixo marinho ao longo da Costa dos Coqueiros, litoral norte da Bahia ”

  1. ELIANA NASCIMENTO REIS disse:

    Olá, acabo de ver os registros feitos por vocês, são imagens que causam indignação a
    qualquer pessoa sensível a importância da conservação do ambiente. Assim como vocês, percebo a falta de noção da maioria dos frequentadores de nossas praias, portanto, tendo acabado de me formar em pedagogia e por amar nosso litoral, gostaria de saber se vocês têm interesse em contratar um profissional nesta área?

  2. ismar gil disse:

    Seria de grande valia que as ONG’S juntamente com as escolas fizessem um trabalho de conscientização.

  3. ismar gil disse:

    Sim, quem limpa as praias? Sempre q posso faço caminhadas e levo um saco plastico bem grande, e eu e meu marido fazemos coleta e rapidinho o saco fica bem cheio, que tal fazermos mais mutirões? Com a ajuda de uma ONG , facilitaria um pouco. Grata,

Leave a Reply