Eventos, leis e patrimônios

Chega de lixo, de depredação de equipamentos e vias públicas, da desvalorização dos patrimônios culturais e de ameaças ao meio ambiente. Esta na hora de organizar as coisas e evitar que o poder público continue sendo cúmplice de tantas irregularidades.

 

 

Bernardo Mussi

16/11/2010

Eventos, leis e patrimônios

 

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

 

Salvador tem que aproveitar esta oportunidade única da realização de jogos da Copa do Mundo para entrar definitivamente no clima da revitalização de suas ações institucionais. Não há tempo a perder com o discurso da falta de educação da população, da crise social que justifique a desordem generalizada e da continuidade da omissão que ameaça os patrimônios culturais e ambientais da cidade.

Exemplo de patrimônio vilipendiado com base neste discurso é a zona costeira do bairro da Barra, compreendido mais especificamente entre a região da praia do Porto até o Farol da Barra.

Existem nessa região três fortificações históricas que testemunham o início da fase colonial do Brasil, além de sítios arqueológicos submersos representados por naufrágios de países e épocas diferentes, e um riquíssimo conjunto ambiental e paisagístico que privilegia a cidade do Salvador frente a muitas outras cidades pelo mundo.

 

Espicha Verão 2010. Foto: João Ramos / Bahiatursa

Espicha Verão 2010. Porto da Barra, Salvador, Bahia. Foto: João Ramos / Bahiatursa

 

Só na Barra é possível ver o sol nascer e morrer no mar. Creio que não há outro lugar no planeta que isso seja possível.

Diante do excepcional valor deste cenário, que se encontra ameaçado em razão da completa falta de respeito às leis de proteção dos patrimônios culturais nacionais e do meio ambiente, como exemplo os artigos 216 e 225 da Constituição Federal, grupos organizados da sociedade civil iniciaram uma série de ações articuladas visando provocar o poder público e a iniciativa privada para atuarem em favor destes patrimônios por serem de interesse difuso e coletivo.

Um dos aspectos que mais chamou atenção na fase de diagnóstico dos problemas foi a questão da realização excessiva de eventos na Barra. A maioria deles, licenciados e até patrocinadas por órgãos públicos, aconteceu em total desacordo com os critérios mínimos de sustentabilidade no que diz respeito à conservação do meio ambiente e dos patrimônios culturais.

 

Espicha Verão 2010. Foto: João Ramos / Bahiatursa

Espicha Verão 2010. Porto da Barra, Salvador, Bahia. Foto: João Ramos / Bahiatursa

 

A Barra foi “anabolizada” pelos eventos trocando sua bela e saudável vocação natural para uma cultura de qualidade, por um volume exagerado de ações pouco inteligentes que lhe renderam um vigor artificial, até interessante, porém, doentio.

As pessoas não vão para a Barra sabendo que ali se deu a fundação da primeira capital do Brasil. Não sabem o valor do Forte de Santo Antonio, que é o nome do Farol da Barra. Não procuram saber, ao menos, o significado da praia do Porto da Barra e dos seus fortes, o Santa Maria e o São Diogo. Não sabem que ali existiu a Vila do Pereira e a Vila Velha. Não sabem sobre o nome da Baía de Todos os Santos, nem o papel de “Caramuru” e Catarina Paraguaçu no processo de miscigenação do povo brasileiro. Não querem nem saber.

Muitos eventos levam as pessoas para a Barra para continuarem enterrando essa história. E incentivam a criação de novos hábitos e novas culturas sob uma míope visão de que agradar um grande volume de pessoas com apelos efêmeros seja algo positivo. Há que se manobrar as massas em sentido diferente, na busca da valorização de suas raízes, do conhecimento e da sua identidade.

 

O Fundo da Folia

O Fundo da Folia. Foto: Francisco Pedro/Global Garbage

 

O Fundo da Folia. Foto: Francisco Pedro/Global Garbage

O Fundo da Folia. Foto: Francisco Pedro/Global Garbage

 

O Fundo da Folia. Foto: Francisco Pedro/Global Garbage

O Fundo da Folia. Foto: Francisco Pedro/Global Garbage

 

Eventos na Barra devem ser exceção. Eventos que não machuquem seus patrimônios e que agreguem valor cultural de verdade, sem anabolizantes e com muita criatividade. Nossa gente precisa de educação, cultura e arte. Precisa de exemplos institucionais que sirvam como incentivo à mudança de comportamento na direção da sustentabilidade.

É bom que fique claro que a maioria dos eventos que acontecem na Barra são muito bons para a cidade, e por isso devem procurar locais alternativos, apropriados, para que não sejam maculados por, literalmente, “jogarem contra o patrimônio”. É preciso medir seus impactos e levá-los para perto de outras comunidades tão carentes por iniciativas desta natureza.

A Barra deve ser palco do seu próprio espetáculo por ser um museu a céu aberto, uma paisagem deslumbrante e um meio ambiente extremamente rico em vários aspectos. A Barra precisa retomar sua vocação natural muito antes da Copa do Mundo de 2014 para que todos nós, soteropolitanos de alma, voltemos a ter orgulho da nossa cidade.

 

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

 

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

Arena Fest Coca-Cola. Foto: Bernardo Mussi

 

Chega de lixo, de depredação de equipamentos e vias públicas, da desvalorização dos patrimônios culturais e de ameaças ao meio ambiente. Esta na hora de organizar as coisas e evitar que o poder público continue sendo cúmplice de tantas irregularidades.

A Copa do Mundo precisa encontrar a Bahia cheia de baianos orgulhosos por sua identidade. Não personagens de um cenário tragicômico demonstrando uma sórdida alegria inocentemente incentivada por motivações pouco saudáveis.

Que O Fundo da Folia seja relembrado a todo o instante como um marco do início de uma nova mentalidade para eventos em Salvador. Tenho fé que não terei o desprazer de compartilhar com o mundo uma nova matéria, com imagens igualmente chocantes, com o título O Fundo da Copa.

As leis estão aí…

 

saiba mais

Apresentação de slides usada por moradores da Barra, no dia 20 de outubro deste ano, durante uma audiência no Ministério Público Estadual da Bahia com diversos órgãos públicos municipais e estaduais, para discutir a questão dos eventos e seus impactos ao Meio Ambiente e Patrimônios Culturais do bairro.

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