Careta, a tartaruga que defende o planeta!

O espectáculo passa uma clara e simples mensagem do perigo da poluição marinha por plásticos, um assunto tão sério e que requer a nossa mais preciosa atenção. Se estivermos com a atenção ao espectáculo, este tem mensagem tanto dirigidas às crianças como aos adultos, apelando especialmente a estes últimos para que repensem a forma como consomem enquanto família.



Lisboa, 19 de outubro de 2011

Série Especial Lixo Marinho Mercado Ético

Careta, a tartaruga que defende o planeta!

Pepa, Careta, Casquinha, Vasco e Quim. Foto: Teresa Aires


João Frias
Instituto do Mar (IMAR)

Enquanto investigadores científicos, por vezes podemos ter dois tipos de dias no laboratório, os monótonos ou os cheios de energia, dependendo do empenho que colocamos no trabalho que temos diante de nós. Apesar de sabermos que o trabalho que desenvolvemos terá benefícios e implicações a médio e longo prazo, por vezes o momento de espera entre a causa e o efeito podem ser fonte de desânimo. Questionamos muitas vezes o impacte que terá na sociedade determinado problema ambiental, e ao sermos entrevistados tentamos passar a mensagem da melhor forma, mas nem sempre com o efeito educativo que pretendemos. Remediar ou mitigar problemas ambientais requer esforço, paciência e uma forte aposta na educação, aposta esta que deve começar pela base – as crianças, que são o futuro de cada país e do planeta.

Neste sentido, assistir ao musical de teatro “Careta, a tartaruga que defende o planeta” no Oceanário de Lisboa, com produção da Plano 6 em colaboração com o Oceanário, faz-me sentir extremamente feliz por estar a ver um espectáculo que tem directamente a ver com o trabalho que desenvolvo todos os dias. O espectáculo passa uma clara e simples mensagem do perigo da poluição marinha por plásticos, um assunto tão sério e que requer a nossa mais preciosa atenção. Se estivermos com a atenção ao espectáculo, este tem mensagem tanto dirigidas às crianças como aos adultos, apelando especialmente a estes últimos para que repensem a forma como consomem enquanto família.

Os efeitos visuais das múltiplas cores e personagens no palco despertam a atenção das crianças. A história das duas tartarugas recém-nascidas que se desafiam a caminhar em direcção ao mar, tendo em atenção todos os perigos, riscos e motivações que estão associadas à grande aventura que é a vida é a força motriz do inicio do musical. Careta e Casquinha, contam as histórias da sua vida, através das várias personagens que encontram, sendo uma das mais importantes a tartaruga sénior Pepa, que lhes explica que em tempos o Oceano era um local limpo, mas que cada vez mais os humanos poluem o mar com todo o tipo de coisas.

No livro do espectáculo, os produtores referem relativamente às tartarugas:

Apesar da armadura única que as protege de muitos perigos, as tartarugas marinhas são dos animais mais ameaçados. Seis das sete espécies que existem nos oceanos estão em perigo! Durante muitos e muitos anos, foram procuradas pelos seus ovos, carne, óleo, pele e carapaça o que levou algumas espécies quase a desaparecerem para sempre! Hoje em dia, há mais perigos que põem em risco a sobrevivência das tartarugas: a poluição, a pesca acidental, o desenvolvimento costeiro, as alterações climáticas e o comércio ilegal, são alguns deles.

Quanto plástico já comeste hoje? Esta pergunta parece estranha, mas não é! É difícil de imaginar que algum animal inclua no menu do dia uma boa fatia de plástico. Mas, na verdade, muitos animais marinhos acabam por comer plástico que se encontra à deriva nos oceanos. As tartarugas marinhas, por exemplo, confundem os sacos de plástico com medusas, um dos seus alimentos preferidos.

O desafio é fácil de superar! Basta transformarmo-nos em super-heróis e utilizarmos os nossos poderes para defender os oceanos. Que tal começar por Reduzir, Reutilizar e Reciclar?

A parte que sublinhei no texto são as preocupações que tenho relativamente ao futuro. Saindo do imaginário infantil, sabemos que os hábitos de consumo quotidianos estão a fazer com que o problema dos plásticos (que podem atingir tamanhos reduzidos) são uma séria ameaça à biodiversidade marinha, com riscos de ingestão ou aprisionamento de mamíferos, répteis, aves e peixes.

Devemos ter um enorme sentido de responsabilidade, que naturalmente trará sabedoria para lidar com as questões ambientais, dando-lhe a importância e o foco necessários. Muitas vezes camuflamos os verdadeiros problemas que nos rodeiam com alusões a crises económico‑financeiras, que neste momento é a desculpa que mais vezes ouvimos.

No sentido de mudar esta forma de pensar e de actuar, recordo-me com carinho uma grande mulher que faleceu recentemente (25 de Setembro de 2011) devido a uma doença com a qual lutava há já vários anos. Essa mulher era a laureada com o prémio Nobel da Paz em 2004 Wangari Maathai. Ela costumava dizer: “São as pequenas coisas que os cidadãos fazem. Isso é o que faz a diferença. A coisa pequena que faço é plantar árvores.” Através da sua luta, esta professora e ativista pelo meio ambiente conseguiu não só aumentar a biodiversidade do seu país, mas também minimizar o problema da fome, quando incentivou as pessoas à sua volta, tomando também acção, para plantarem árvores, terminando assim com o ciclo de queixas e a falta de esperança no futuro.

Também no caso da poluição marinha devemos ter o mesmo espírito pró-activo de começar hoje, no local onde nos encontramos a minimizar o problema, para que os nossos netos não sofram tanto as consequências dos nossos actos. Pensei seriamente neste assunto ao observar a alegria das crianças à minha volta naquele auditório de teatro. Como é possível limitar a vida daqueles que ainda nem compreendem os problemas ambientais que enfrentamos hoje? Não teriam eles e elas, uma palavra também a dizer acerca das nossas acções, se percebessem os inúmeros problemas ambientais que o planeta enfrenta, fruto de má gestão ou de falta de interesse?

Mesmo que se faça pouco, é bom ter presente o espírito da Queniana Wangari Maathai ou do Francês Jacques Cousteau. Nesse sentido continuo a participar em palestras, conferências e reuniões onde são discutidas e definidas estratégias para a minimização deste problema.

Tive a oportunidade de participar recentemente no congresso da European Ecologic Federation, em Ávila, Espanha, que contou pela primeira vez com uma sessão dedicada à poluição marinha, incidindo em derrames de petróleo e derivados e na poluição marinha por microplásticos. Este tipo de iniciativa ajuda a espalhar ainda mais a mensagem de um problema real que tem impactes profundos tanto ambientais como sócio-económicos.

Após ver este musical, sinto uma alegria muito maior quando estou no laboratório, trabalhando activamente no futuro da investigação da temática da poluição marinha sabendo que existem espectáculos como o musical Careta, que são um veículo de cultura e de educação/consciencialização ambiental.

João Frias é Mestre em Engenharia do Ambiente pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), trabalhando na investigação científica de plásticos e microplásticos nas praias portuguesas, no Instituto do Mar (IMAR). Encontra-se neste momento a fazer o Programa Doutoral em Ambiente (PhD) na temática dos impactes dos microplásticos em organismos marinhos.



Leave a Reply