Danilo Couto Would Go!

Como o cara que surfou a onda mais radical dos últimos tempos e é o atual ganhador do XXL não está na lista principal? Para o humilde baiano isso faz parte: “Todos querem estar na lista principal, estou feliz por ter dado esse grande passo e continuarei surfando as maiores ondas do mundo para um dia estar entre os convidados da lista principal”.



9/11/2011

Danilo Couto Would Go!

Sylvio Mancusi comenta a lista do Eddie Aikau 2012 e revela a relação do big surf com egos e vaidades


por Sylvio Mancusi

A cada nova temporada havaiana a ansiedade toma conta da alma dos surfistas, mídia, patrocinadores e amantes das ondas grandes.

Acaba de sair a nova lista dos convidados para o Eddie Aikau e tivemos uma surpresa. Na verdade, a surpresa pelo menos pra mim, foi a confirmação do baiano Danilo Couto como alternate do evento. A vaga, de alternate, deu até uma certa decepção.

Como o cara que surfou a onda mais radical dos últimos tempos e é o atual ganhador do XXL não está na lista principal? Para o humilde baiano isso faz parte: “Todos querem estar na lista principal, estou feliz por ter dado esse grande passo e continuarei surfando as maiores ondas do mundo para um dia estar entre os convidados da lista principal”.

Isso se chama política, como ocorre em todos os lados da sociedade. Se fosse para valorizar o show com certeza ele estaria na lista principal. Mas, o jogo de egos, entre outras “prioris”, pesam nas costas dos organizadores. Qualquer expert que olhar a lista friamente vai notar a presença de pelo menos cinco nomes que nunca são vistos em Waimea, naqueles dias de 20 pés, só pelo prazer de colocar para baixo. Esses convocados, que não encaram essas grandes, são caras que fazem parte da celebração por pura influência e pressão… dos patrocinadores.

Por outro lado: Amor! Esse sentimento foi o que sempre moveu Danilo Couto ao redor do mundo atrás das maiores ondas. E entre outras peripécias, ele mudou da Bahia para o Hawaii. Eu presenciei esse big rider trabalhando como marceneiro, entre outras funções, para juntar a grana necessária para poder estar presente nessas seções épicas, e assim o fez. Creio que Rodrigo Resende – “O Monstro”, foi sua inspiração e influência, pois, médico, Rodrigo já trabalhou com reciclagem de lixo para se manter em Maui, na espera dos grande swells.

Hoje surfar ondas grandes é uma profissão de risco. Quanto vale uma vida? Se compararmos com outros esportes como F1 e MMA, os valores pagos a um big rider chegam a ser irrisórios. Os top 5 da F1 e do MMA levam milhões e se tornam celebridades. Enquanto os gladiadores das ondas no máximo levam alguns mil mensais dos patrocinadores, um salário padrão. E os prêmios dos desafios, são incomparáveis com essas outras modalidades esportivas, tanto aqui quanto no exterior. Como adendo, resta os fatos de que esses salários são pagos durante alguns anos de suas vidas, nesses mesmos anos em que eles correm o risco de deixar suas famílias sem pai ou marido, como aconteceu com Mark Foo, Don Solomon, Todd Chesser e mais recentemente com o havaiano Sion Milosky.

No peito com AMOR

Continuo batendo na tecla do amor, nenhum outro motivo me faz crer que exista valor – material – ao surfar ondas gigantes. Passei muitos anos da minha vida focado somente nessa busca, e depois de alguns anos uma angústia começou a tomar conta do meu coração. “Estou fazendo isso por amor ou só pela obrigação de estar na mídia?”. Eu sempre amei surfar dias grandes em Waimea, ou Jaws, Pipeline, com os amigos. Aliás, nunca tive vontade de sair de Jaws à noite e pegar um avião para Califórnia, para surfar Mavericks e tocar para o México para surfar Todos Santos. Existem caras que fazem isso por amor mesmo, mas são poucos. E muitos deles dizem que não conseguem nem surfar direito quando estão no 2º e 3º estágios, vai tudo no automático.

É assim que funciona comigo, sem tesão não há solução. E resolvi então focar em ‘conteúdos’ onde o oceano se tornou a minha religião, e independente da modalidade praticada, o tesão voltou a bombar no meu coração. Posso estar surfando um dia gigante em Jaws, noutro estar kitesurfando em Pacasmayo, e noutro documentando a história de vida de um amante do esporte. E isso mais uma vez mostrou-me o que importa é fazer por prazer, por e com alma.

Você não irá ver nesse trajeto esquizofrênico; Ross Clark Jones, Laird Hamilton e Darrick Doerner. Para mim esses são os maiores exemplos de doação ao refrão: “Homem x Natureza”, tema explorado com alma pela Alma Surf. Apesar que eles estão interados com a mãe de todos, a natureza, e de nenhuma maneira em uma queda de braços com ela. São três histórias de vida diferentes. Ross já venceu o Eddie Aikau e sempre foi visto nos últimos anos 20 anos deslizando com sorriso no rosto, estilo inconfundível sobre as maiores aberrações do mar. Laird e Darrick criaram o tow-in, e Doerner também foi salva-vidas no North Shore de Oahu por mais de 15 anos, e conhece cada correnteza e centímetro daquelas bancadas. E os holofotes nunca foram seu pagamento.

Ao contrário de hoje em dia, onde dezenas de surfistas buscam a verdade de uma forma de viver colocando suas vidas em jogo. E chutando o pau da barraca, podemos defini-los como kamikazes pagos.

Em Jaws com a FAMÍLIA

Estava em Jaws há uns cinco anos em um dos maiores dias de todos os tempos e naquele momento estava na pilotagem do jet-ski. Vi Laird Hamilton e o salva-vidas de Maui, Archie Kalepa, surfando ondas enormes. O ar que eles respiravam, era o que eu já esperava por muito tempo.

Quando fui puxar o surfista que estava comigo – nome em off – ele fala: “Me puxa bem no rabo da onda, que eu tenho família. E só quero fazer umas fotos e filmagens”. Aquilo cortou meu coração e me deixou refletindo durante meses, como se uma agulha entrasse intermitente em minha cabeça.

Nessa época eu já era formado em jornalismo e realizava reportagens onde tentava me vangloriar dos meus próprios feitos para depois mostrar somente meus amigos. Balançado também por alguns problemas pessoais, que fizeram com que eu me fechasse em meu mundo, notei quanto o ego pode influenciar uma vida. Hoje dou graças a Deus por ter passado por essa evolução, e sinto-me muito bem.

Existem atletas que vivem essa egotrip por toda carreira esportiva, sem enxergar o bem maior. O ego, no big surf é gigante, tanto quanto as ondas. Não sou cético. Na verdade, é claro que isso acontece em todas as modalidades e profissões. Mas o ser humano é digno de evolução constante. E o que importa é que torço para que todos consigam diferenciar os ídolos, dentro e fora do mar.

Lembro-me de estar com um dos melhores big riders do mundo em uma surf trip… E peguei ele dizendo para seu parceiro: “Tínhamos que estar só nós dois aqui no pico. O Sylvio, aqui, só divide a mídia”. Fiquei triste, mas ao mesmo tempo entendi um monte de coisas. E refleti sobre o ditado, de que “O sol nasceu para todos”, mas que esse mesma frase não faz parte do coração de muitos. E são
o dinheiro e a exposição na mídia que os move.

Eu uma rápida analogia com os prazeres da vida, surfar ondas grandes é igual a tomar um bom vinho…o prazer é o mesmo.

Queremos ídolos, dentro e fora d’água. Precisamos deles.

Viva Danilo, Ross Clark Jones, Laird, Doerner, e todos os surfistas de alma.

almasurf.com









Veja também:

Quiksilver em Memória de Eddie Aikau divulga lista de convidados

Danilo na fita



One Response to “Danilo Couto Would Go!”

  1. robertinho disse:

    Parabens Silvinho pelo texto!

    Só verdade !

    Painho é idolo dentro e fora dagua!

    Aloha

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