Inseto desequilibra cadeia alimentar

Podendo viajar 1200 quilômetros no mar em 60 dias, 4 fêmeas desse inseto chegam a por 50 ovos, num mesmo grão de lixo de 5mm, que eclodem em menos de dez dias. Trabalho científico publicado por pesquisadores do Departamento de Oceanografia Biológica, Instituto Oceanográfico, Univesidade de São Paulo – USP, “Pelotas de plástico como lugar de deposição de ovos e meio de dispersão do inseto Halobates conhecido como skatista do mar” é uma descoberta inédita trazida à tona pela primeira vez ao mundo, no Brasil.



31 de maio de 2012

Inseto sem asas em lixo marinho desequilibra a vida nos oceanos

Podendo viajar 1200 quilômetros no mar em 60 dias, 4 fêmeas desse inseto chegam a por 50 ovos, num mesmo grão de lixo de 5mm, que eclodem em menos de dez dias.

Prof. Dr. Alexander Turra


Por Luís Peazê*

Enquanto permanecemos em terra firme de costas para o mar, ou alarmados com as revelações de contínuo fluxo e acúmulo de lixo marinho de base terrestre, em meio às grandes catástrofes de vazamentos de óleo cru, e os dramáticos fenômenos sísmicos marinhos de grandes proporções, com severos impactos em cidades costeiras densamente povoadas, o Halobates, um inseto sem asas, que caminha sobre as águas, pode estar desequilibrando a base da cadeia alimentar marinha, da nossa cadeia alimentar como um todo.

O Prof. Dr. Alexander Turra, do Departamento de Oceanografia Biológica, Instituto Oceanográfico, Univesidade de São Paulo – USP, publicou recentemente um trabalho científico com o título hermético “Plastic pellets as oviposition site and means of dispersal for the ocean-skater insect Halobates / Pelotas de plástico como lugar de deposição de ovos e meio de dispersão do inseto Halobates conhecido como skatista do mar”. Uma descoberta inédita trazida à tona pela primeira vez ao mundo, no Brasil.

A.P. Majer, M.C. Vedolin, A. Turra, Plastic pellets as oviposition site and means of dispersal for the ocean-skater insect Halobates, Marine Pollution Bulletin, Volume 64, Issue 6, June 2012, Pages 1143-1147, ISSN 0025-326X, 10.1016/j.marpolbul.2012.03.029.

Turismo e lixo

Acidentalmente, num passeio turístico no sul da Bahia, pela praia de Itacaré, de férias em 2010, o Prof. Turra distraia-se catando pellets na areia, outro assunto bicudo que explica a gravidade do caminho que a poluição marinha percorre, quando observou algumas manchinhas avermelhadas de material orgânico naquelas pelotinhas já minúsculas.

Importa lembrar que esses pellets chegam às praias pelas trocas de marés que devolvem parte dos resíduos sólidos recebidos para a contemplação de seus proprietários, os indivíduos humanos.

O Prof. Turra atendeu ao Portal do Lixo Marinho por telefone, ora na cidade de Yeosu, Coreia do Sul, participando do 2º. Simmpósio Internacional sobre Efeitos de Mudanças Climáticas nos Oceanos, de 13 a 20 de maio, evento que ocorre no bojo da EXPO 2012 Yeosu Korea e nos contou como fez a descoberta:

Sem uma lupa no momento, resolveu colher amostras e, ao retornar ao trabalho em seu laboratório acadêmico, iniciou a pesquisa com uma equipe de colegas da USP.

Problemas miúdos e graves em números astronômicos crescentes

Assim, no mês de julho de 2010, foram coletadas amostras de pellets em 13 praias do sul da Bahia, (Taipus de Fora, Resende, Tiririca, Costa, Ribeira, Prainha, São José, Jeribucaçu, Arruda, Engenhoca, Hawaizinho, Camboinha e Itacarezinho) e após desenvolvimento de metodologias, análises, pesquisa e discussões o trabalho foi publicado no Marine Pollution Bulletin em 2012.

Uma das últimas revelações, sobre lixo marinho, publicada no jornal Biology Letters da provecta Royal Society é de que a quantidade de resíduos de plásticos nos oceanos cresceu 100 vezes em 40 anos.

Neste contexto, os pellets, esférulas da matéria prima da produção de produtos derivados de plástico, do tamanho de um grão de arroz, vêm sendo objeto de estudo científico, dada a incidência planetária com que são identificados, presentes nas areias de todas as praias ao redor do globo, flutuando nos mares, dentro do estômago de animais e pássaros marinhos, assim como são veículos de poluentes persistentes.

Segundo o estudo do Professor da USP, essas bolinhas minúsculas passaram a ser utilizadas pelo Halobates, apelidado de patinador das águas ou Jesus, porque não tendo asas caminha sobre as águas do mar, seu habitat onde alimenta-se de presas ainda mais minúsculas, o zooplancton, e serve de alimento para seus predadores naturais, os peixes, as tartarugas marinhas e os pássaros.

Essa descoberta do Dr. Turra é um mergulho na tão propalada “sopa de plástico” feito com uma lupa para trazer à tona um problema tão grande quanto qualquer outro com que nos debatemos relacionados ao meio ambiente.

Aliás, o objeto de estudo do Dr. Turra está na superfície mesmo, das águas litorâneas, embora ele tenha encontrado seus vestígios nas areias das praias. Ele explicou que aquelas manchinhas vermelhas eram na verdade resíduos de ovos dos Halobates, pois esse inseto vive na superfície da água. Podendo viajar 1200 quilômetros para dentro do mar em 60 dias, caminhando e ajudado pelas correntes.

Imaginemos esse trabalho de investigação dos cientistas perguntando para os dados de suas amostragens, quantos desses ovos de aproximadamente meio milímetro foram postos sobre um pellet, há quanto tempo estariam ali aqueles ovos, e pelas características dos resíduos de ovos quando teriam eclodido, quantas fêmeas do Halobates teriam desovado naquele mesmo pellet (o estudo indica que até quatro fêmeas podem por, cada uma até 10 ovos, num mesmo pellet), em que parte dessa pequena bolinha de plástico encontrada na lâmina d´água os ovos de Halobates teriam sido postos, do lado, parte de cima, abaixo ou acima da linha d´água?

Essas são algumas das inúmeras perguntas que a equipe de pesquisadores do Dr. Turra respondeu, consultando vários autores pesquisadores de áreas afins, para chegar à triste conclusão de que o desequilíbrio na cadeia alimentar pode estar em curso acelerado, posto que a evidência do aumento de pellets no ambiente marinho é crescente.

Isto é, está aumentando a oferta de plataforma onde o Halobates põe seus ovos e multiplica-se.

(ir) Responsabilidade Solidária

Se você acredita que o aumento de lixo descartado inadequadamente ao aumentar o número de insetos (incluindo os voadores), entre outras faunas indesejáveis, aumentará também os seus predadores naturais e o equilíbrio sempre existirá sobre a Terra, corrija imediatamente seus hábitos e crenças porque é um equívoco grave de (ir) responsabilidade solidária. Esta expressão é, antes de ser uma metáfora necessária, um termo jurídico que vem arrolando cada vez mais corresponsáveis em crimes, delitos e negligências com perdas e danos de terceiros de todas as naturezas, da própria natureza, criando jurisprudência nas várias esferas do direito.

Se você acredita que o lixo descartado inapropriadamente produz aumento maligno e desproporcional de insetos e bactérias patogênicas, você está a um passo de resolver, ou mitigar o problema. Embora, no caso aqui, o Halobates não seja um inseto típico de transmissão patogênica, presa fácil para seus predadores naturais. Contudo, não quer dizer que não haja um problema a ser investigado.

Alimento e tempo de vida

Perguntamos quanto tempo vive esse animal, para procurarmos entender como o aumento de sua população no mar poderia significar um desequilíbrio crescente e o Prof. Turra buscou a informação enquanto conversávamos, tendo verificado que o animalzinho pode viver até 90 dias. Provavelmente seja uma vida curta, mas, dado que suas comunidades vivem em todos os tipos possíveis de flotsam (objetos flutuantes), tem-se que antes de cada ciclo de três meses se fechar, sua população cresce vertiginosamente, considerando que leva apenas cinco dias para seus ovinhos eclodirem, apontando de fato, mesmo para leigos, que um desequilíbrio na oferta de comida para seus predadores (peixes, tartarugas marinhas e pássaros) está em curso.

De acordo com o estudo do Dr. Turra, inspeções de resíduos de ovos em pellets varridos para as praias revelaram que uma média de 24% (de 0 a 62%) havia sido suporte de ovos (de 5 a 48 ovos por pellet).

Em termos de pesquisa e desenvolvimento científico, o trabalho do Dr. Turra é apenas um embrião e a própria conclusão de seu trabalho publicado é de que os estudos devem merecer atenção acadêmica contínua, devem ser aprofundados para formular mais perguntas e obter respostas mais apuradas de maior massa de dados coletados sistematicamente.

Aqui do lado de fora dos laboratórios de pesquisa, interferindo, utilizando, manejando, usufruindo, legislando ou fiscalizando os ambientes marinhos e costeiros, trata-se de mais um alarme que cada um em seu lugar deve atender com urgência ao buscar responder a uma única pergunta: o que fazer para evitar mais esse vetor de desequilíbrio da cadeia alimentar nos oceanos, na Terra?

*Especial para o Portal do Lixo Marinho, Luís Peazê é jornalista (MTB 24338), presidente do Instituto Brasil Costal – BRCostal www.luispeaze.com

Ovos no pellet


Cápsula vazia de ovo de H. micans, indicada por seta


Detalhe da cápsula


Disposição dos ovos de acordo com a flotação do pellet


Estágio de desenvolvimento da maioria dos embriões observados


Sobreposição de ovos no pellet



Se você deseja ler o artigo Plastic pellets as oviposition site and means of dispersal for the ocean-skater insect Halobates, escreva para info@globalgarbage.org



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