Plástico amigo também mata tartaruga

Experimento científico investiga uma faceta dessas nossas benfeitoras e vilãs, as sacolas de plásticos: refletindo severamente nos seus impactos na vida marinha, suas taxas de degradação revelam números bem menores do que os anunciados pela BioBagUSA, entidade que credencia a produção de embalagens à base de polímeros biodegradáveis.



1 de junho de 2012

Saco plástico fura tripas de tartarugas marinhas. Sim, os biodegradáveis também.

Kathy Townsend Phd, bióloga marinha, restituindo tartaruga reabilitada para o seu habitat, Moreton Bay, Queensland, Australia. Foto: Arquivo pessoal


Por Luís Peazê*

Em pleno debate sobre as sacolinhas de plástico mesmo tendo uma lei que bane essas benfeitoras (para uns) e vilãs (para outros) em São Paulo, o estado com maior parque industrial e residência de capital estrangeiro (escritórios de multinacionais) e a maior capital da América Latina, um experimento científico investiga a taxa de degradação dos sacos de plástico (padrão, degradável e biodegradável) em fluídos gastrointestinais de tartarugas marinhas e revela discrepâncias alarmantes. A primeira vez que esse tipo de meio experimental é utilizado no mundo.

Christin Müller, Kathy Townsend, Jörg Matschullat, Experimental degradation of polymer shopping bags (standard and degradable plastic, and biodegradable) in the gastrointestinal fluids of sea turtles, Science of The Total Environment, Volume 416, 1 February 2012, Pages 464-467, ISSN 0048-9697, 10.1016/j.scitotenv.2011.10.069.

Não bastasse a dramática corrida das tartarugas-bebês em fuga grupal para a água do mar, após seus ovos eclodirem, para escaparem de aves predadoras, os neonatos não sabem o que lhes esperam na adolescência e vida adulta. Das sete espécies existentes, cinco delas são encontradas no Brasil e todas ameaçadas de extinção, na lista do IBAMA. Apesar de estarem no mundo por mais de 150 milhões de ano, as tartarugas são um dos animais mais indefesos diante das más práticas humanas não apenas no ambiente marinho e costeiro, mas também nas cidades com ligações pluviais diretas com o mar.

O estudo a que nos referimos foi feito por três cientistas, dois alemães e uma australiana, e as amostras utilizadas foram coletadas em águas da Moreton Bay, na costa do estado de Queensland, mas é universal posto que a incidência desse tipo de lixo marinho ocorre com freqüência de relativa igualdade em todos os mares e oceanos do mundo, incluindo sistemas de esgoto, riachos e rios que por sua vez são veículos naturais para os resíduos sólidos chegarem ao mar, inexoravelmente.

Embora a indústria de polímeros biodegradáveis tenha produzido importantes melhorias em seus produtos alternativos, as taxas de degradação em águas salgadas e outros meios é ainda muito mais lenta do que os seus fabricantes atestam. Eles informam que é genericamente de 49 dias, o estudo comprovou um taxa alarmante de até 3 anos.

Apesar de ser uma melhoria substancial, comparada aos plásticos padrão (que levam séculos para degradrem), a primeira conclusão do experimento, através dessa discrepância, é que mesmo os sacos de plástico degradáveis são uma ameaça de curto prazo contínua aos animais marinhos.

Cientistas marinhos são humanos?

Sabe-se que as tartarugas podem viajar por um oceano inteiro durante o seu ciclo de vida, e buscam comida até 6km de distância e esse hábito aumenta sua exposição geográfica, transfronteiriça e vulnerabilidade.

O experimento indicou que a degradação dentro das tripas dos animais marinhos não acontece tão rápida a ponto de evitar a morbidade e consequente mortalidade de ambos os tipos de tartarugas utilizadas na experiência, a tartaruga verde e a cabeçuda.

Entrevistamos Kathy Townsend PhD (University of Queensland, MBRS Moreton Bay Research Station, na Austrália) e o Jöerg Matschullat que formaram a equipe de cientistas com Cristin Müller (ambos os últimos do Interdisciplinary Environmental Research Centre, Technical University Bergakademie Freiberg, Brennhausgasse, na Alemanha) e Kathy informou que ela verifica empiricamente em sua casa que, de fato, os sacos biodegradáveis, chegam a se degradarem mesmo antes, em 30 dias.

Acontece, segundo Kathy, que a indústria anuncia a taxa de degradação como se todos os meios fossem degradar da mesma forma esses materiais, e o experimento comprovou que nos intestinos das tartarugas o tempo de degradação é bem maior.

Dra. Kathy Townsend, bióloga marinha do Moreton Bay Research Station, recebeu o prêmio Earthwatch Goldring Marine Emerging Scientist Fellowship (Anel de Ouro da Comunidade de Cientistas Vigilantes da Terra) pelo seu trabalho sobre impacto de lixo marinho em tartarugas marinhas. A primeira vez que este prêmio é concedido a um australiano.

Kathy Townsend Phd, bióloga marinha, amostra de detritos encontrados nos intestinos de tartarugas. Foto: Arquivo pessoal


Jörg ecoa as respostas de Kathy e ambos demonstram uma preocupação ambivalente de cientistas meticulosos à procura de provas de laboratório e com a provável dor dos animais marinhos diante dessas armadilhas sórdidas patrocinadas pela prática humana.

É inevitável não lembrar da desgastada mas vital máxima de que “quando você aprende, conhece, entende os processos ecológicos, você gosta deste conhecimento adquirido e assume que é parte do meio ambiente tendendo a protegê-lo”. Enquanto você permanecer na ignorância irracional, favorecerá as conseqüências da degradação da vida sobre a Terra, e a sua.

Conhecedor de recente lei que bane os sacos plásticos dos supermercados em São Paulo e Minas Gerais, Jörg insere-se sem pensar contra o time dos que defendem a revogação da lei.

Reproduzindo o ambiente do intestino animal

O trio de cientistas ligados inclusive pela amizade enquanto pesquisadores transnacionais, conseguiram através do Centro de Pesquisa de Moreton Bay, onde Kathy trabalha, recursos técnicos para empreenderem o experimento, incluindo um equipamento que reproduz no tubos de ensaio movimentos semelhantes aos que ocorrem nos intestinos das tartarugas.

Obtiveram amostras dos fluídos intestinais (GIF) de dois exemplares encontrados mortos, de uma tartaruga herbívora (tartaruga verde) e outra carnívora (cabeçuda), separaram fluídos do estômago, intestino delgado e grosso e simularam ambientes em água doce e salgada do mar, obviamente com temperaturas controladas adequadamente.

A partir desse aparato, descrito aqui simploriamente, passaram a observar progressivamente as reações de tendência de mudança de volume e massa de pequenos pedaços de sacos plásticos, considerando inúmeros aspectos físico-químicos tais como a diferença de agressividade dos fluídos da tartaruga verde em relação à cabeçuda, aquele composto de uma enzima, peculiar da tartaruga verde, para quebrar as fibras de celulose contidas nos vegetais, este último (da cabeçuda) sem esta enzima mas com a característica de velocidade de digestão desde o esôfago à via retal, e tabularam os resultados que sinalizam de imediato uma necessidade inclusive estimulante de continuidade desse tipo de estudo.

Jörg, que visita o Brasil com freqüência para palestras e eventos científicos, informou que seu amigo da UNICAMP, o Professor de Química Marcelo Oliveira, tem intenção de empreender e aprofundar o estudo. Mas ele alerta que é fundamental selecionar estudantes para fazerem parte da pesquisa assim como contar com as condições e equipamentos ideais.

O furo é mais embaixo

O esforço dos pesquisadores vem sendo publicado em veículos da comunidade científica e inicialmente descreve o cenário dramático que deveria sensibilizar, mais do que aos cientistas, à sociedade como um todo.

Atualmente, tem sido relatado que 177 espécies marinhas ingerem polímeros produzidos pelo homem que lhes causam ameaça à vida tais como perfurações de suas tripas.

Os polímeros orgânicos sintéticos existem a pouco mais de 100 anos. Fazem parte de nosso cotidiano e são de fato muito úteis, pelo baixo custo, transparência ajustável, flexibilidade, leveza e alta durabilidade. Esta característica é ao mesmo tempo um dos maiores benefícios e dos piores problemas que enfrentamos. Um efeito colateral indesejável que estimula a produção e uso cada vez mais crescente de similares degradáveis e/ou biodegradáveis que apodrecem mais rápido no meio ambiente.

No entanto, o estudo de Jörg, Kathy e Cristin comprovou que os testes divulgados pela BioBagUSA (2010) são relativos apenas a situações industriais, em que a massa dos plásticos é degradada 100% em 49 dias. Em situações tais como no meio de água doce e água salgada, a taxa de decomposição é somente de 4,5% nos mesmos 49 dias, ou no máximo 50% em um ano.

Este observador teve a oportunidade de velejar e ancorar em vários pontos na e próximo de Moreton Bay, nas imediações da segunda maior área metropolitana da Austrália (Brisbane), e pode testemunhar a exuberância e diversidade ambiental, lugar do maior banco de areia do mundo, onde parece que o mar ao descer a costa australiana a rasgou em tiras naquele ponto, escondendo vestígios de lavas vulcânicas, formando temíveis recifes para navegadores e uma profusão de rios e canais, que se renovam a cada maré, oportunizando uma riqueza espetacular vegetal e de fauna.

No Brasil estamos acostumados com esse espetáculo verde e azul, de norte a sul, beneficiado por um sistema climático que faz do nosso país um berço dourado invejável. Tudo isso é verdade, mas não passa de uma brisa poética necessária que carregamos dentro do peito e de lembranças memoráveis.

No dia a dia, contudo, somos vítimas de nós mesmos com nossos hábitos e costumes, práticas irresponsáveis, disputas pelo viés financeiro e político em vez de vencermos a própria ignorância que começa na hora da compra nos supermercados, pela nossa boca, atinge nosso esôfago até a nossa via retal tal qual nas tartarugas. Vivemos um problema de lixo global (de maus hábitos generalizados) que demanda ações locais de todos os responsáveis envolvidos, dos indivíduos às entidades, públicas, privadas e da sociedade civil organizada.

“…eu tinha uma tábua de maré atualizada, com base no horário da vazante, na profundidade local e um coeficiente fornecido para Island Head/Cape Towsend, calculei com precisão de fração de três dígitos a profundidade mínima de onde escolhi ancorar. Helga ficou apreensiva, mas eu lhe avisei que sobrariam entre oitenta centímentros e um metro e vinte de água sob a nossa quilha. Ficamos observando o “profundímetro” e eu fiquei aproximando meus cálculos, como se estivesse jogando cartas sozinho. No horário limite para a maré baixa havia oitenta centímetros de água sob a quilha e apenas uns três metros de água de cada lado de Alvídia. Ancoramos com perfeição bem no meio de um canal. Mas o motivo de tanto esmero para ancorar não foi exibicionismo, é que John havia avisado para não deixarmos de observar as tartarugas do local. Na maré baixa elas dão um show, são de uma serenidade essas senhoras, nada é capaz de tirar-lhes a calma e são muito simpáticas. Ficamos horas no cockpit observando-as, botando nomes, comparando com pessoas, escolhemos duas que eram as nossas próprias caras…” Extrato do livro de aventura Alvídia – Um Horizonte a Mais, Luís Peazê

*Especial para o Portal do Lixo Marinho, Luís Peazê é jornalista (MTB 24338), presidente do Instituto Brasil Costal – BRCostal www.luispeaze.com



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