Viagem de trabalho ao mar de plástico

— A região próxima da superfície da água é onde se concentram os micropedaços de plástico degradado pela ação do Sol e do vento, onde acabam funcionando como esponja para outros poluentes orgânicos perigosos — explica Gabriel Monteiro, biólogo da USP e responsável pelo desenvolvimento da rede e da metodologia de coleta.



13/11/12

Viagem de trabalho ao mar de plástico

Velejadores brasileiros partem este mês em roteiro de circunavegação e colherão amostras para estudo global sobre a poluição por plásticos nos oceanos

Danilo verifica as condições do mastro e das cordas das velas da embarcação


CESAR BAIMA

RIO – Produzido pela primeira vez no século XIX, o plástico revolucionou a indústria e o consumo nos últimos 100 anos. Resistente, leve, versátil e barato, ele está presente em uma gama de produtos que vai de imensos aviões a minúsculos aparelhos eletrônicos, servindo tanto para proteger nossa comida quanto para embalar nosso lixo. Seu uso intensivo, no entanto, é um problema cada vez maior para o meio ambiente.

Embora grande parte das mais de 270 milhões de toneladas de resinas termoplásticas fabricadas anualmente vá parar em lixões e aterros sanitários em terra, pelo menos 10% de todo plástico descartado acaba nos oceanos. Carregado pelas correntes marítimas, ele se acumula em verdadeiras ilhas de detritos nos chamados grandes giros do Pacífico, do Atlântico e do Índico, locais onde estas correntes adquirem um movimento rotativo. E a partir deste mês um casal de velejadores, em parceria com o Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo, vai fazer o primeiro levantamento global desta poluição para pesquisadores brasileiros.

Jornalistas de formação, Danilo Mesquita e Marcela Rocha Mesquita se apaixonaram pelo mar nas frequentes escapadas do estresse do trabalho na cidade de São Paulo para mergulhos no litoral do estado. Com o tempo, amadureceram a ideia de realizarem uma expedição de circunavegação da Terra. Decidiram então largar os empregos, compraram um barco e desde maio estão nos Estados Unidos preparando a viagem.

— Nossos mergulhos fizeram a gente ficar cada vez mais perto do oceano e começamos a nos preocupar com sua preservação — lembra Marcela. — Aos poucos, fomos nos inteirando da grave questão que é a poluição por plásticos e fomos conversar com os especialistas na USP até chegarmos a este projeto, unindo o útil ao agradável. Não é uma simples viagem de curtição, queremos registrar tudo e vamos colher milhares de amostras da água que serão analisadas no Brasil.

Para isso, os pesquisadores da USP desenvolveram uma rede especial, conhecida como neustônica. Com uma malha de apenas 0,5 milímetros, 60 centímetros de largura, 25 centímetros e altura, dois metros de comprimento, e abas laterais que funcionam como dois esquis, ela vai “varrer” os primeiros centímetros da superfície da água com o objetivo de coletar pequenos pedaços flutuantes de plástico enquanto um equipamento chamado fluxômetro registra a quantidade de água filtrada, o que vai permitir quantificar a concentração de fragmentos em uma determinada área. Já os organismos marinhos capturados acidentalmente pela rede serão devolvidos ao mar. Não existem estimativas precisas sobre a poluição oceânica, mas os cálculos são de que passa de 600 milhões de toneladas a quantidade de plástico nos oceanos. Já segundo relatório mais recente sobre o tema do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o plástico representa 70% de todos os detritos encontrados no mar, com 46 mil pedaços flutuando a cada 2,58 quilômetros quadrados de oceano.

— A região próxima da superfície da água é onde se concentram os micropedaços de plástico degradado pela ação do Sol e do vento, onde acabam funcionando como esponja para outros poluentes orgânicos perigosos — explica Gabriel Monteiro, biólogo da USP e responsável pelo desenvolvimento da rede e da metodologia de coleta. — A absorção de poluentes pelos plásticos faz com que sua concentração em torno dos fragmentos seja muito maior do que na água. Nosso principal objetivo é verificar a que ponto chega essa concentração e como os plásticos servem de transporte para estes poluentes, funcionando como uma jangada que os leva a locais distantes de onde foram lançados.

Segundo Monteiro, para evitar conflitos e pedidos de autorização, as coletas só acontecerão em águas internacionais. Isso e a necessidade de que as condições do clima estejam favoráveis para a varredura apenas da região próxima da superfície farão com que a distribuição das amostras varie muito. Assim, na primeira parte da viagem, entre a Flórida e o Panamá, não estão previstas coletas, que só começarão depois que os velejadores atravessarem o canal e chegarem ao Pacífico, a partir de meados de fevereiro de 2013.

— Mas será uma amostragem muito ampla e um passo importante para a pesquisa brasileira, atualmente muito regional e direcionada para a poluição por plásticos nas praias — defende Monteiro. — Vários outros países já estão fazendo levantamentos do tipo, mas esta é a primeira vez que uma expedição brasileira vai fazer coletas em uma extensão tão grande, seguindo protocolos rigorosos para que o material coletado não seja contaminado. E perto do fim da expedição, já na costa brasileira, deveremos ter uma amostragem mais densa e numerosa. Claro que temos grande interesse em saber como estão as águas do mundo, mas também temos que cuidar com atenção do nosso quintal.

Jornal O Globo



One Response to “Viagem de trabalho ao mar de plástico”

  1. marcela rocha disse:

    Obrigada pela divulgação, Fabiano.
    Estamos juntos nessa!!!
    Você e o Global Garbage são nossos tripulantes virtuais.
    abs
    Marcela e Danilo – equipe 4 Ventos

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