Praia Local, Lixo Global
No carnaval de 2001, Fabiano Prado Barretto, surfista
e fotógrafo de São Salvador da Bahia, na época
com 30 anos, resolveu passar o feriado prolongado caminhando por
praias desertas da Linha Verde, litoral norte da Bahia, mais conhecido
como Costa dos Coqueiros. Ele caminhou, sozinho, por aproximadamente
86 km em 4 dias, sendo que no primeiro dia foi da praia do Forte
até Porto Sauípe (24,5 km); no segundo, de Porto Sauípe
até Subaúma (21,1 km); no terceiro, de Subaúma
até Baixio (17,1 km); e no último, de Barra do Itariri
até Sítio do Conde (13,5 km).
Esse
trecho do litoral baiano é praticamente inabitado, especialmente
nos trechos entre as vilas de pescadores, onde Fabiano chegava a
caminhar 4, 5, 6... até 8 km sem encontrar ninguém.
Porém, uma coisa ele encontrou, e muito, LIXO! A maior parte
desse lixo era de embalagens industriais estrangeiras, algo que
certamente não fazia parte do lixo produzido pelos pescadores
locais, levando Fabiano a considerar que o lixo estrangeiro encontrado
na Costa dos Coqueiros poderia ter sido trazido por correntes marítimas.
Extremamente surpreso com o fato, Fabiano passou
a coletar as embalagens que achava mais interessante e voltou para
Salvador carregando 81 embalagens coletadas entre a Praia do Forte
e Imbassaí e 13 coletadas entre Subaúma e Baixio,
a maioria dos Estados Unidos (10), África do Sul (9) e Alemanha
(8), Bélgica (6) e Reino Unido (6).
Em fevereiro de 2002, Fabiano e Davi Neves, amigo
e também surfista, caminharam novamente pela Costa dos Coqueiros,
com o objetivo de coletar todas as embalagens estrangeiras que encontrassem
no percurso de 62,7 km, entre a Praia do Forte e Baixio, para poder
avaliar novamente as condições do lixo nessas praias.
Recolheram 730 embalagens de 47 países diferentes, sendo
que, dessa vez, os 5 países que apresentavam maior quantidade
de lixo foram os Estados Unidos, Itália, Taiwan, África
do Sul e Alemanha e 38% era de embalagens plásticas de água
mineral
No
meio de todas essas garrafas, havia uma que continha uma carta,
escrita por um navegador italiano com as coordenadas do local onde
ela havia sido jogada no mar – a mais de 4 mil km da costa
baiana, em um ponto próximo a Ilha Santa Helena. Essa garrafa
de água mineral havia feito praticamente o mesmo percurso
que o navegador brasileiro Amyr Klink na sua travessia a remo da
África para o Brasil, retratada no livro Cem dias entre céu
e mar. Klink chegou na Praia da Espera, em Itacimirim, a 5 km ao
norte da Praia do Forte, beneficiado pelas correntes, assim como
a garrafa, o que comprovou que o lixo que chega nas praias baianas
vem de locais bem distantes.
O tipo de embalagem, origem e local da coleta, também
levaram Fabiano a concluir que o lixo não poderia ter sido
jogado nas praias por turistas estrangeiros, pois é inviável
que turistas tenham vindo ao Brasil trazendo lâmpadas, leite,
inseticida, etc., sendo bem possível que esse lixo tivesse
sido jogado em alto-mar por embarcações estrangeiras,
tais como veleiros particulares, cargueiros e cruzeiros de turismo
e levado até a costa baiana pelas correntes marítimas.
Mas
há controvérsias quanto à origem desse “lixo
globalizado”, o meteorologista Ricardo de Camargo, especialista
em correntes e ventos na costa brasileira, considera um mistério
o fato do lixo se concentrar no trecho de 4 km entre a Praia do
Forte e Imbassaí, pois, segundo ele, há navios que
têm o mau hábito de lançar lixo no mar, mas
em sacos plásticos que não deveriam se romper nem
chegar à costa. “A explicação pode ser
a incidência de ventos de leste, muito comuns naquela área”,
diz o pesquisador da USP. O Giro Tropical, um conjunto
de correntes marítimas, poderia estar trazendo os objetos
lançados de qualquer navio que passasse pelo Atlântico,
entre África e Brasil.
Por outro lado, a oceanógrafa Ceci Moreira
de Souza, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São
Paulo - USP, acredita que essas embalagens certamente são
provenientes de embarcações que passam próximas
à costa brasileira. “A possibilidade do material ter
sido trazido de locais distantes como a Europa, por correntes marítimas,
é praticamente nula”, afirma ela.
A Capitania dos Portos de Salvador informou que durante
o verão de 2001, aproximadamente 350 navios estrangeiros
cruzam as águas baianas em direção aos portos
de Salvador, Ilhéus e Porto Seguro, trazendo turistas e cargas,
e alguns, como o transatlântico italiano Rhapsody
com capacidade para 800 passageiros, podem atracar até uma
vez por semana durante nesse período.
The International Convention for Preservation of
Pollution from Ships, uma espécie de bíblia da navegação
internacional na área ecológica, em vigor desde 1973,
mais conhecida como Marpol,
determina que toda embarcação deve manter, sempre
à vista, recipientes para juntar os resíduos produzido
a bordo, sendo proibido, a qualquer embarcação, jogar
lixo no mar. Porém, a fiscalização no Brasil,
a cargo da Capitania dos Portos e da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) é deficitária, pois, para
fiscalizar os 950 quilômetros do litoral da Bahia, a Marinha
dispõe apenas de 9 embarcações e um efetivo
de 50 homens. “O descarte de lixo em alto mar é um
crime comum no litoral do Brasil”, diz a ambientalista do
Greenpeace Viviane Silva.
Segundo Manuel Argolo da Cruz, chefe do departamento
de segurança de tráfico aquaviário da Capitania
dos Portos da Bahia, cerca de 35% das embarcações
são abordadas por fiscais que devem verificar desde o estado
de conservação do barco até o destino dado
ao lixo. “A maioria dos barcos não joga lixo no mar,
mas muitos apresentam indícios de terem jogado”, diz,
admitindo não conhecer nenhuma multa aplicada por isso. “É
difícil provar”.
Com um litoral muito extenso, o descarte de lixo
em águas brasileiras, tanto por parte de passageiros quanto
por parte das tripulações, pode ser feito de modo
ilícito, a qualquer hora do dia ou da noite, sem testemunhas.
O descarte de lixo na faixa de 200 milhas do mar territorial brasileiro
é um crime passível de multa que pode variar de R$
7 mil a R$ 50 milhões. “Apesar do rigor da multa, um
flagrante, nesses casos, é praticamente impossível”,
justifica o capitão-de-fragata e comandante interino da Capitania
dos Portos de Salvador, Sérgio Silveira.
“Este tipo de crime só acontece porque
o país não tem o respeito da comunidade internacional”,
acredita o ambientalista Juca Ferreira, vice-presidente da Fundação
Onda Azul e secretário executivo do Ministério da
Cultura. Segundo ele, o Brasil precisa modernizar o conceito público
de gestão econômica do seu território marinho
que se estende por 200 milhas náuticas ao longo do litoral
brasileiro. Até agora o país só discutiu a
questão do ponto de vista financeiro e enquanto isso, nos
tornamos quintal das grandes potências”, afirma Juca
Ferreira.
Nos Estados Unidos, por exemplo, os comandantes dos
navios que sujam a costa americana chegam a ser presos. Em todos
os portos americanos, principalmente onde o fluxo turístico
é maior, são distribuídos folhetos e material
educativo sobre a importância de se preservar os mares e as
campanhas contam com o apoio de voluntários e da sociedade
organizada. Porém, quando estão fora das águas
territorias americanas, esses navios parecem se esquecer de tudo
isso e acabam jogando seu lixo em águas internacionais e
de outros países.
Outro problema do lixo jogado no mar é que
ele representa uma ameaça à fauna local, “os
plásticos e vidros são perigosos sobretudo para os
mamíferos marinhos e tartarugas”, explica o biólogo
Gustave Lopez, coordenador técnico na Bahia do Projeto Tamar.
Lopez cita um vídeo que mostra uma tartaruga com dificuldades
para desovar porque sua cloaca estava obstruída por um saco
plástico, “que são engolidos com frequência
pelos animais porque os confundem com algas”.
Pelos dados do Projeto MAMA - Mamíferos Marinhos,
somente no ano de 2000, quatro golfinhos apareceram mortos em praias
do litoral de Salvador, vítimas da ingestão de plásticos,
pois os animais, que têm a visão pouco apurada, costumam
confundir esse tipo de lixo com sua presa predileta, a lula. No
caso mais grave, registrado na praia do Canta Galo (Cidade Baixa
de Salvador), em 1998, um golfinho adulto foi achado morto sem sinais
de ferimentos e, durante a autópsia, os veterinários
encontraram em seu estômago um pacote de arroz Uncle Bens,
de fabricação norte americana. Ainda no ano de 2000,
mais um animal foi vítima da poluição marinha,
dessa vez um filhote de baleia Jubarte, com aproximadamente um ano
de vida, pois ingeriu 3 tampinhas de garrafa pet que ficaram presas
em sua garganta retendo a passagem do leite. “O animal acabou
morrendo de inanição”, diz Luciano Wagner, coordenador
do projeto, dessa vez o lixo era de origem brasileira.
Fabiano viu nessa triste realidade um desafio e uma
oportunidade para retribuir ao oceano tudo o que ele já havia
lhe proporcionado e continua proporcionando, firmando o compromisso
pessoal de divulgar informações relacionadas ao lixo
marinho, através de suas fotos ou de publicações
na mídia, batizando essa ação de Praia Local,
Lixo Global.
“Este estudo, é o primeiro que se tem
conhecimento na Bahia relacionado à origem do lixo que chega
às praias, trazidos através dos movimentos das marés”
(Revista Travessia, abril de 2001).
A ação Praia Local, Lixo Global,
que hoje conta com o financiamento da fundação alemã
Lighthouse
Foundation e com mais 3 programas de ação, id
Garbage, Onda Verde e Amigos
do Lixo, visa divulgar, pesquisar e combater o lixo global.
Atualmente, o lixo marinho global que invade a Costa dos Coqueiros
está sendo coletado e monitorado por estudantes e turistas
para, futuramente, possibilitar a identificação dos
navios poluidores.
Espera-se que, em breve, os oceanos estejam livres
do lixo.
A natureza agradece !
O oceano agradece !
Os seres marinhos agradecem !
A praia agradece !
Yemanjá agradece !
Nossos filhos agradecem !
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