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Correio do Mar



No dia 8 de fevereiro de 2002 foi encontrada, entre as vilas praianas de Subaúma e Baixio, Costa dos Coqueiros, Bahia, uma garrafa plástica de água mineral, sem rótulo, trazendo uma carta em seu interior. Esta garrafa faz parte de um antigo costume dos navegantes que, movidos pela curiosidade, jogam garrafas com cartas ao mar para saber onde irão chegar.

Neste caso, a carta estava assinada por um navegador italiano e trazia as seguintes informações: nome da embarcação, data e local (coordenada) em que a garrafa havia sido jogada ao mar, nome e endereço do velejador. A garrafa foi jogada ao mar no dia 26 de setembro de 2001, na coordenada 16º 45’ S e 05º 40’ W, a 93,19 km da Ilha de Santa Helena (15º 55’ S e 05º 45’ W) e a 3.489,51 km do local (12° 09’ S e 37° 43’) em que foi encontrada na Costa dos Coqueiros, comprovando que o lixo que chega às praias baianas pode vir de lugares bem distantes.

Encontrar na praia uma garrafa com uma carta em seu interior, por si só, já é muito interessante, mas mais interessante ainda foi constatar que a carta trazia a data e a coordenada em que havia sido jogada ao mar, e que esta coordenada coincidia com um ponto da trajetória feita pelo velejador brasileiro Amyr Klink na sua travessia a remo (cerca de 6.500 km) entre a África e o Brasil (Lüderlitz/Namíbia até Praia da Espera, Itacimirim, Costa dos Coqueiros - BA), narrada em seu livro Cem dias entre céu e mar.

“Santa Helena foi um amor platônico naminha vida. Tanto a desejei, tanto lutei para me aproximar e nem sequer a toquei. Não foi preciso. Vê-la foi uma das mais belas coisas que já me aconteceram. A força daquela imagem distante transformou-se em ânimo, coragem e esperança. Ao avistá-la pela última vez deixei escrito no meu diário: "Último adeus à ilha. Um dia voltarei!". E dobrei sua página mais importante”.

Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar, Capítulo 10 - Um dia voltar, pg. 122.

O surpreendente foi que, a partir deste ponto próximo à Ilha de Santa Helena, a garrafa italiana e a “Lâmpada Flutuante”, apelido do minúsculo barco a remo do velejador, navegaram mais de 4 mil km (considerando que a trajetória não foi em linha reta), praticamente na mesma rota para chegarem quase que ao mesmo local.

De acordo com o mapa da trajetória de Klink, que está no livro Cem dias entre céu e mar, ele chegou ao Brasil na Praia da Espera, em Itacimirim, 5 km ao norte da Praia do Forte, na Costa dos Coqueiros, tendo feito o trecho entre Santa Helena e a Costa dos Coqueiros em 50 dias. Como sua travessia foi feita a remo, Klink tentou utilizar ao máximo as correntes marítimas para ajudá-lo a chegar ao Brasil. A garrafa italiana, por sua vez, fez o trecho em não mais que 135 dias, ou seja, cerca de 29 km/dia, 1,2 km/h ou 20 m/min, se considerarmos que ela tenha chegado à praia no mesmo dia em que foi encontrada.

Como a garrafa italiana chegou apenas a cerca de 65 km de distância da Praia da Espera, pode se concluir que as rotas de Klink e da garrafa foram praticamente as mesmas e que, assim como Klink, a garrafa chegou até a Costa dos Coqueiros trazida pelas correntes marítimas. Da mesma maneira, as demais embalagens estrangeiras encontradas na Costa dos Coqueiros, também, são trazidas por estas correntes marítimas, o que explica o fato da maioria ser embalagens de garrafas plásticas de água mineral, pois a flutuação do plástico permite que façam longas trajetórias sem afundar.

Além da carta, outra surpresa trazida pelo mar. Dessa vez, infelizmente, mostrando que o lixo global também é prejudicial para a vida marinha: um dente de peixe medindo cerca de 4 cm encravado em uma embalagem plástica dura, o peixe provavelmente perdeu seu dente ao morder a embalagem pensando que era alimento.

 

 

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