Um dos objetivos da ação Praia Local, Lixo Global
é conseguir identificar os navios que jogam o lixo global em
alto-mar analisando as embalagens trazidas até as praias pelas
correntes marítimas. Uma tarefa importante, pois os navios
são responsáveis por 85% do lixo global encontrado no
mar, porém difícil, já que, ao contrário
do petróleo que deixa seus vestígios na forma de uma
maré negra, o lixo, após descartado, acaba se dispersando
ou afundando, sem deixar rastros.
A ação Praia Local, Lixo Global
começou em 2001, quando coletou 94 embalagens espalhadas
pelas praias da Costa dos Coqueiros, Litoral Norte da Bahia, num
trecho de 31 km, com o intuito de identificar sua origem, seja pelo
idioma e/ou código de barras utilizados nos rótulos,
cujos 3 primeiros dígitos determinam o país de procedência,
conforme
tabela da EAN.UCC, ou seja, European Article Numbering Association
- EAN e Uniform Code Council - UCC (entidade americana que administra
o sistema de Código Universal de Produtos - UPC).
Dessas 94 embalagens, foi possível a identificação
da origem de 88 delas, cujos rótulos ainda estavam legíveis,
verificando-se que tinham vindo de 26 países diferentes,
a maioria dos Estados Unidos (10), África do Sul (9), Alemanha
(8), Bélgica (6) e Reino Unido (6), e, em menor quantidade,
de países como Indonésia, Argentina, Canadá,
Espanha, Índia, Finlândia, Tailândia, Coréia
do Sul e Chipre.
As embalagens encontradas apresentavam estados de
decomposição distintos, desde embalagens novas, recém
chegadas à praia como, por exemplo, um pote plástico
de geléia fabricada nos Estados Unidos que ainda continha
resto do produto em perfeito estado, como embalagens já em
evoluído estado de decomposição, como latas
totalmente enferrujadas e plásticos completamentes ressecados
que, quando tocados, despedaçavam.
As
embalagens eram geralmente de água mineral (21) e leite (13),
porém havia, também, embalagens de inseticidas, sucos,
produtos de beleza e limpeza, material de escritório, refrigerantes
e alimentos diversos. Os tipos de embalagem mais comum eram as plásticas
(46), sprays em latas (21) e Tetra Pak (17). Além disso,
encontrou-se 1.647 lightsticks, usados como sinalizadores
e para pesca noturna; 43 lâmpadas incandescentes e fluorescentes,
que pelo modelo (tipo de bocal e filamentos) são de fabricação
estrangeira; e 54 garrafas de vidro de bebidas alcóolicas.
Os
lightsticks encontrados nas praias causaram preocupação
não só pela quantidade (1.647 em 2001), mas também
pela forma como o líquido, que permanece em seu interior
após o descarte, tem sido usado pelos nativos. Observou-se
o uso desse líquido, de cor avermelhada ou amarelada, das
mais variadas maneiras, como bronzeador, devido à coloração
semalhante; óleo de massagem; para dores de coluna e joelho;
reumatismo; micose de pele; para retirar o piche da sola dos pés;
como chaveiro, etc, e até casos mais graves
de ingestão, tendo sido relatado que uma criança chegou
a beber o líquido pensando que fosse suco. Esse líquido
não é considerado tóxico pelo fabricante se
o lightstick for usado corretamente, ou seja, como sinalizador,
não sendo recomendado, porém, o seu uso sobre a pele
ou lábios, sua ingestão ou a inalação
de eventuais vapores formados pelos líquidos. Porém,
como os lightsticks chegam às praias sem a embalagem, a falta
de informação acaba causando muita confusão
quanto à forma correta de uso. Em 1998, observou-se, na Europa,
que os lightsticks estavam sendo consumidos para serem usados em
festas não apenas como fonte de luz portátil, mas
também para se aplicar o líquido sobre os lábios
para deixá-los fluorescentes, o que acabava causando inchaço
e dormência.
O lixo global é preocupante não só
pelo possível uso indevido que as pessoas podem fazer dele,
mas também porque pode conter material perigoso que fica
jogado nas praias. É o caso de um pescador que, ao encontrar
uma bóia na praia e perceber que havia algo em seu interior,
decidiu serrá-la, porém desmaiou ao respirar o ar
que saiu de dentro da bóia - a bóia estava cheia de
cocaína! Um outro pescador contou que um dia achou, na praia,
um objeto desconhecido e abrí-lo em sua casa, porém
ao passar diante de uma barraca de praia, um banhista, que por acaso
era da Marinha, o alertou para que não manuseasse aquele
objeto, pois tratava-se de uma bomba! A idéia de que vamos
encontrar um tesouro trazido pelo mar é muito antiga, porém
continua presente no nosso imaginário.
Por
outro lado, não só de embalagens estrangeiras é
feito o lixo global, a ação Praia Local, Lixo
Global também encontrou muitas embalagens brasileiras
nas praias baianas que haviam sido jogadas ali pelos próprios
banhista ou trazidas do mar pelas correntes marítimas, como,
por exemplo, embalagens de óleo para motor a diesel da BR
Petrobras, e até embalagens de água mineral e
margarina de várias marcas.
Outra caminhada pelas praias da Costa dos Coqueiros
em 2002, num trecho de 62,7 km, resultou na coleta de 730 embalagens
industrias de 47 diferentes países. Dessa vez os cinco países
com mais lixo nas praias baianas eram Estados Unidos (100), Itália
(70), Taiwan (53), África do Sul (45) e Alemanha (43) você
tem os números de 2002? e 38% eram embalagens plásticas
de água mineral. Interessante observar que o lixo global
apresenta alto índice de embalagens plásticas, pois
como flutuam bem, conseguem se deslocar por longas distâncias
sem afundar.
Em 2003, o trecho caminhado foi de 83,1 km,
de Imbassaí até Sítio do Conde, também
na Costa dos Coqueiros, tendo sido coletadas 524 embalagens e os
cinco países que apresentaram mais lixo nas praias foram
Estados Unidos (77), Reino Unido (31), Alemanha (30), Singapura
(30) e Holanda (28). Dessas embalagens, 66,5% era de plástico,
16,7 % de metal e 13,2 % de papel, veja os gráficos para
mais informações.
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