Lixo estrangeiro polui o litoral
Matéria publicada no jornal O ESTADO DE S. PAULO de 25/07/2005
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ONG fundada por fotógrafo baiano radicado na Alemanha faz campanha pela limpeza das praias e da costa brasileira

Biaggio Talento

SALVADOR - Desde que encontrou nas praias do litoral norte da Bahia, no verão de 2001, as primeiras 81 embalagens descartadas de produtos estrangeiros (como garrafas plásticas de água mineral da Indonésia e Coréia do Sul), o fotógrafo baiano Fabiano Prado Barreto percorreu uma longa trilha em defesa do meio ambiente. Ele descobriu que o material é jogado no mar pelos navios que percorrem as costas brasileiras e as mesmas correntes marinhas do Atlântico que trouxeram as primeiras naus portuguesas para a Bahia fazem a entrega indesejável dos detritos.

Identificou lixo de 70 países nas praias baianas nos últimos anos e com essas informações e muita persistência vem realizando, a partir da Alemanha, onde mora atualmente, um trabalho de conscientização para tentar limpar os oceanos e as praias brasileiras. Parte do primeiro lote do lixo recolhido ele entregou no Consulado da Itália em Salvador.

Depois registrou tudo em fotos e passou a denunciar o caso em várias partes do mundo. Em 2003, fundou a ONG Global Garbage, patrocinada pela Lighthouse Foundation, da Alemanha. Ultimamente, Barreto está preocupado com um tipo específico de detrito tóxico, encontrado em vários pontos do litoral brasileiro: embalagens de um atrator luminoso, conhecido em inglês como lightstick, tipo de sinalizador usado por pescadores na captura do cobiçado peixe espadarte, por meio da técnica conhecida como espinhel de superfície, uma linha de 80 quilômetros de comprimento onde são fixados milhares de anzóis. O sinalizador também é preso na linha de pesca.

Trata-se de um tubo preenchido por duas substâncias químicas que, quando misturadas, produzem luminosidade por até 12 horas, atraindo os peixes. Milhares dessas peças chegam às praias brasileiras e são manipuladas por pessoas sem nenhuma informação sobre a toxicidade do produto, tanto que usam o resto do óleo do tubo até com fins "terapêuticos", espalhando-o na pele.

Pesquisadores das Universidades de São Paulo e Federal do Rio Grande que estão analisando as substâncias químicas dos atratores - entre elas hidrocarbonetos aromáticos, clorofenóis e derivados do ácido salicílico - constataram, a princípio, que elas podem causar alergias, mutações celulares e até câncer. A Global Garbage está tentando viabilizar financeiramente uma análise ampla sobre o produto. "Só os resultados de uma pesquisa feita por uma instituição importante nos permitirão iniciar ações internacionais junto aos governos e fabricantes", comentou Barreto, informando que os fabricantes afirmam que o lightstick não é tóxico.

Ele recebeu informações de localidades praieiras do Maranhão, de Santa Catarina, da Bahia e do Espírito Santo sobre os atratores que aparecem constantemente nas areias. Só para se ter uma idéia da quantidade de lightsticks descartados na costa do País, a Global Garbage descobriu que dois navios "espinhaleiros" japoneses autorizados a pescar nas águas brasileiras utilizaram em apenas cinco viagens de pesca do espadarte 69.300 atratores luminosos.

Numa das campanhas recentes de monitoramento de lixo global realizada em 90 quilômetros do litoral norte baiano, membros da ONG recolheram 7 mil atratores.

O diretor da comissão científica da organização, o oceanógrafo Isaac Rodrigues dos Santos, propõe campanhas sistemáticas contra o descarte intencional dos atratores. Teme que se "medidas preventivas não forem tomadas e essa nova forma de poluição não for devidamente investigada, é possível que isso se consolide como um grave problema sanitário e ambiental". A ONG elaborou um cartaz alertando e condenando a utilização dos sinalizadores que vem distribuindo em várias comunidades à beira-mar e para companhias de navegação.
vidae@estado.com.br

http://txt.estado.com.br/editorias/2005/07/24/ger002.html


VIDA&O ESTADO DE S.PAULO

Domingo, 24 de Julho de 2005

Detritos serão transformados em arte e devolvidos à UE

O fotógrafo ambientalista Fabiano Prado Barreto, atualmente morando na Alemanha, conversou por e-mail com o Estado sobre sua cruzada contra os poluidores dos oceanos.

Quando você descobriu o lixo global nas praias baianas, em 2001, devolveu o material aos "donos"?

Além do cônsul da Itália em Salvador, devolvemos o lixo nos Portos de Hamburgo (Alemanha), Roterdã (Holanda) e Antuérpia (Bélgica). Agora temos mais de 7 mil embalagens e um novo conceito para devolver o lixo. Vamos transformá-lo em arte antes de enviar de volta. Ou seja, recebemos o feio e devolvemos o belo. Junto iremos enviar as fotos do lixo da forma que encontramos nas praias (o feio). A transformação do lixo em arte será feita pelos moradores das vilas aonde o lixo chega. Iremos fazer workshops com artistas plásticos nas comunidades. Como as embalagens fabricadas pelos países membros da União Européia representam 40% do lixo encontrado nas praias do litoral baiano, vamos devolver todo este lixo para a Comissão de Meio Ambiente da UE, a quem pediremos uma compensação ambiental.

Antes de criar a Global Garbage, você procurou ONGs ecológicas para denunciar o problema do lixo?

Liguei para duas ONGs buscando uma orientação de quem trabalhava na defesa do meio ambiente. Ambas, a Fundação OndAzul e o Greenpeace Brasil, me atenderem muito mal. O Greenpeace me disse que não tinha projetos no Brasil voltados para resíduos sólidos. A OndAzul disse que era melhor "limpar praia freqüentada, em vez de praia deserta". Também não conseguia entender como o Projeto Tartaruga Marinha (Tamar) nunca tinha, em 20 anos (na época, em 2001) de existência, falado publicamente sobre o lixo marinho global, uma vez que um dos locais onde o lixo marinho global mais se acomoda é no bolsão de desova das tartarugas marinhas na Praia do Forte. Enfim, ONG não era a minha praia. Hoje que conheço mais o terceiro setor, minha decepção não diminuiu. Da mesma forma que tem político ruim, corporação ruim, tem ONG ruim. Acho que isso se deve ao fato de que muita gente que não consegue se encaixar no setor privado cria uma ONG para ter um cartão de visita. Meio que virou um negócio.

Como você descobriu o porquê de as tripulações de navios estrangeiros jogarem tanto lixo na costa brasileira?

Para falar com os marinheiros, tive a idéia de conversar nos prostíbulos das cidades portuárias européias. Muitos marinheiros me disseram a mesma coisa: que a questão é a falta de fiscalização e a falta de estrutura de muitos portos brasileiros e muitos navios jogam lixo no mar para economizar, pois para entregar o lixo no porto é preciso pagar (e em muitos deles falta fiscalização) e muitos jogam por falta de opção, simplesmente porque o porto de destino não oferece o serviço de retirada do lixo. Além disso, os portos brasileiros não solicitam o certificado de retirada do lixo do porto de origem.

A Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) não atua nessa área?

Muita gente do meio portuário no Brasil diz, em off, que a Anvisa é quem tem o menor interesse de que o lixo do navio venha para a terra. O lixo de navio é classificado pela Anvisa na mesma categoria do lixo hospitalar. A Convenção Marpol, que o Brasil ratificou, diz que os portos devem criar facilidades para a recepção do lixo de navio. Porém, isso não ocorre em muitos portos. Imagine a situação em que um navio proveniente da Ásia, de um país que tem um surto de gripe asiática, entrega o lixo no porto e este não tem o devido destino, indo parar num aterro (lixão), onde dezenas de pessoas estão trabalhando diretamente em contato com o lixo e sem nenhuma proteção, e em poucos dias uma epidemia está instalada na cidade. Qual é o órgão responsável? A Anvisa. Por isso, muita gente diz que para a Anvisa é mais seguro o lixo ficar no mar.

Depois da sua última visita à Bahia, como vai o trabalho da Global Garbage?

Criamos um programa chamado ID Garbage - Programa de Identificação das Origens do Lixo Marinho. É como se, ao encontrar a embalagem, você solicitasse o seu ID. Se fosse estrangeiro, solicitasse o passaporte e olhasse o visto, para ver se está legal no país. Caso não, você deportaria. Esse é o conceito. A idéia não é limpar a praia, mas monitorar, saber a origem do lixo. Além disso, criamos também um projeto chamado Capitães da Areia. Contratamos moradores das vilas, jovens, que coletam o lixo marinho global uma vez por semana em um ou dois trechos que podem variar entre 10 e 21 quilômetros de extensão. Estamos capacitando esses jovens para usar uma máquina de fotografia e, em um segundo momento, uma filmadora. Como eles estão ali no dia-a-dia, são as pessoas ideais para documentar as irregularidades ambientais. O slogan desse projeto é "Todo sonho pode virar realidade, toda realidade pode virar sonho".

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