Agências na Europa vendem Brasil como paraíso sexual

Da Alemanha até o Nordeste brasileiro, o Fantástico investigou a indústria do turismo sexual.
Uma agência de viagens em Colônia, a 580 quilômetros da capital, Berlim, vende pacotes turísticos para o Brasil. Tem até uma bandeira na parede. A agência faz reserva em uma pousada do Recife, chamada Bamboo, com bar e boate.



13/03/2011

Agências na Europa vendem Brasil como paraíso sexual

O Fantástico viajou para a Alemanha e investigou durante dois meses a indústria do sexo no Nordeste brasileiro.


Da Alemanha até o Nordeste brasileiro, o Fantástico investigou a indústria do turismo sexual.

Duas meninas. Uma aparenta ter seis anos. A outra, no máximo, quatro. Elas dançam no palco com garotas de programa.

Em Natal, Rio Grande do Norte, um conhecido ponto de encontro de prostitutas e turistas estrangeiros. Uma espécie de feira do sexo.

“A gente fica um pouco aqui. Depois vai pro motel, ficamos, namoramos um pouco”, diz uma prostituta.

Agora, Recife, Pernambuco. Praia de Boa Viagem.

O produtor do Fantástico finge ser turista. Ele fala em espanhol com uma garota de programa.

Produtor: um encontro, mais ou menos, quanto sairia?

Prostituta: R$ 100.

Passamos o carnaval no Nordeste para desvendar, passo a passo, como funciona o turismo sexual na região.

O que flagramos em Pernambuco e no Rio Grande do Norte é o desfecho de uma investigação jornalística que durou dois meses.

Uma agência de viagens em Colônia, a 580 quilômetros da capital, Berlim, vende pacotes turísticos para o Brasil. Tem até uma bandeira na parede. A agência faz reserva em uma pousada do Recife, chamada Bamboo, com bar e boate.

Nosso produtor pergunta ao dono da agência alemã se é comum os clientes dele se hospedarem na Bamboo.

A resposta: sim, com frequência.

Acessando a página da agência alemã na internet, encontramos uma descrição da Bamboo e, rapidamente, é possível descobriro site da pousada de Pernambuco.

Logo de cara, já se veem fotos e vídeos de mulheres em poses sensuais, e de passeios de barco. Tudo o que um turista sexual procura.

Vamos ver agora, detalhadamente, como foi a apuração da reportagem, desde o início.

Primeiro, nosso produtor simulou ser um turista sexual e encontrou, na internet, grupos de discussão e salas de bate-papo sobre o assunto. Pessoas de várias partes do mundo contam experiências e dão dicas.

Entre os lugares mencionados, estão Tailândia, no sudeste asiático; República Dominicana, no Caribe; e Recife.

Segundo o Ministério brasileiro do Turismo, denúncias anônimas já impediram ações organizadas de turistas sexuais.

“Da mobilização da sociedade civil e da mobilização dos órgãos federais, já foi possível barrar voos fretados, que vinham da Europa para cá, com essa finalidade”, afirmou Isabel Mesquita, secretária nacional de Políticas de Turismo.

Com as informações obtidas na internet, chegamos ao site da agência da Alemanha, na cidade de Colônia, que oferece hospedagem na pousada Bamboo, no Recife.

Nosso produtor faz um primeiro contato, por telefone. O sócio da agência confirma que tudo o que tem no site da pousada é real e que se trata de um hotel para solteiros.

Compramos o pacote por 1.593 euros, R$ 3650. O valor inclui passagem de ida e volta, num voo comercial e oito diárias na pousada do Recife. Uma diária sai por 40 euros. O total da hospedagem: 320 euros, R$ 735.

De São Paulo, nosso produtor viaja a Frankfurt. São quase 200 quilômetros até Colônia. A agência de turismo fica no Centro.

O sócio do lugar nos atende. Confirma que a viagem para recife está marcada. Conta que a pousada tem as melhores camas e os melhores colchões da capital de Pernambuco. E que o que o nosso produtor procura está lá e que o local nem parece uma casa de prostituição.

Diz ainda que ele e a mulher já estiveram no lugar e conhecem o dono.

Antes de voltar para o Brasil, fomos a outra agência da Alemanha que também vende pacotes para a pousada Bamboo. Ela fica em um prédio comercial, em Olpe, a 75 quilômetros de Colônia. Há um mapa do Brasil na parede.

O funcionário descreve a pousada como um lugar de entretenimento noturno e ponto de encontro.

Brasil, 3 de março.

Ninguém da pousada aparece, e ele vai de táxi. O motorista antecipa o que se vai encontrar.

Nossa equipe acompanha tudo. A pousada fica na praia de Boa Viagem, uma das mais famosas de Pernambuco. Dos 15 quartos, doze estão ocupados.

No bar, que fica no térreo, uma garota de programa fala de onde são os turistas.

Quem não é hóspede também pode frequentar o bar.

As garotas de programa confirmam: “Aqui é ponto de prostituição”.

Só uma porta de vidro separa o bar da área dos quartos. Os turistas recebem uma chave e podem levar as prostitutas para os apartamentos, sem passar pela recepção. A movimentação é grande o dia inteiro.

Este homem é o gerente da pousada. Nome: Hans Hermann. Apelido: Bigode. Ele diz que é alemão e está no Brasil há 15 anos.

Em fevereiro de 2008, o engenheiro Alisson Pereira, de 37 anos, foi encontrado morto dentro da pousada. Ele era morador do recife e tinha ido ao bar.

“Ficou evidenciado que ele foi assassinado após ser violentamente espancado”, disse o delegado Gilmar Rodrigues, em fevereiro de 2008.

O gerente e o dono do pousada, o austríaco Alfred hartner, o Freddy, foram indiciados pela polícia, denunciados pelo Ministério Público e agora são réus, acusados de matar o engenheiro.

Eles aguardam o julgamento em liberdade.

“Constatamos que o Bamboo bar só serve unicamente para prostituição. Encontros amorosos clandestinos. E temos informações também de uma jovem que teria sido convidada para sair do país para fazer prostituição internacional, teria se recusado e teria sido também espancada”, diz o delegado Gilmar Rodrigues.

E antes disso, em 2002, a polícia encontrou no bar da pousada uma jovem de 17 anos.

“Viemos a descobrir que ela usou a certidão de nascimento de outra pessoa para tirar uma identidade como sendo maior de idade. Há seis meses, todos os finais de semana, nós fazemos operações nas ruas do Recife, e encontramos, principalmente na praia de Boa Viagem, varias adolescentes que fazem programa mediante pagamento”, conta Zaneli Alencar, delegado.

Nos quatro dias em que nosso produtor ficou na pousada, não houve brigas e aparentemente não havia menores.

Uma prostituta informa o preço: “Meu preço é R$ 200, R$ 150”.

O programa sexual fora da pousada é mais barato. Foi o que a constatamos no sábado de carnaval, na praia de Boa Viagem.

A prostituta diz que a presença delas aumenta o movimento da pousada, e o resultado é mais venda de bebidas.

Na praia, turistas estrangeiros e o nosso produtor, que simula ser alemão, são muito assediados pelas prostitutas.

À noite, na pousada Bamboo, nosso produtor combina um encontro com uma prostituta.

Eles saem do bar e vão para o quarto. A mulher cobra R$ 150. O produtor diz que está passando mal e a garota de programa vai embora.

No dia seguinte, nossa equipe procurou o gerente da pousada.

O Fantástico pediu à prefeitura do Recife informações sobre o alvará de funcionamento da pousada Bamboo. E constatou: ela nem deveria estar aberta.

“A pousada Bamboo tem um licenciamento enquanto bar e restaurante não como pousada. Já foi feito notificação e uma intimação para que o responsável pelo empreendimento compareça a regional para regularizar a sua situação”, comenta Maria de Biase, diretora de Controle Urbano de Recife.

“Existem as redes de abuso e exploração sexual, de prostituição, de turismo sexual, há um trabalho de prevenção por nossa parte. Agora o importante é que a sociedade entenda e que avise os órgãos competentes”, diz a secretária de Desenvolvimento Humano de Recife, Amparo Araújo.

De Pernambuco, fomos para o Rio Grande do Norte investigar outra denúncia de turismo sexual. É segunda, 7 de março, Carnaval.

Em Natal, a situação chegou ao ponto de alguns comerciantes colocarem avisos em inglês: “Aqui não há turismo sexual”.

À noite, muitos estrangeiros procuram diversão em um centro comercial, cheio de bares. Fica a 500 metros da praia de Ponta Negra, a mais famosa de Natal. Está lotado.

Assim que nosso produtor chega, simulando novamente ser estrangeiro, uma prostituta se aproxima.

O lugar é aberto. Qualquer um entra, sai. Funciona como se fosse uma feira do sexo.

Mais um flagrante. Do lado de fora, bem na saída dos frequentadores, há venda de cocaína. Os traficantes chegam a parar os turistas e oferecem a droga.

É neste ambiente, com cocaína e garotas de programa, que encontramos duas crianças, aquelas que mostramos no início da reportagem.

Uma mulher acompanha as meninas, que têm entre 4 e 6 anos. Parece conhecer bem o lugar e as pessoas.

No tempo em que passamos no centro comercial, nenhum turista mexeu com as meninas. Elas vão embora por volta de 1h30.

“O interesse nosso é fazer uma busca, verificar se crianças estão tendo seus direitos violados, dar um encaminhamento ao conselho tutelar e integrado com a delegacia da criança e do adolescente, com a vara da infância e juventude, pra que a gente possa coibir esse tipo de ação”, comenta o secretario municipal de trabalho e assistência social, Alcedo Borges.

Durante o dia, voltamos ao ponto de encontro das prostitutas. Encontramos uma mulher que se diz funcionária do local. Simulamos interesse em alugar um quiosque. A mulher diz que o dono é o espanhol Salvador Arostegui.

Segundo o Ministério Público Federal, ele é acusado de tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

“Salvador é dono de todo complexo, o Salvador é dono de todo esse quarteirão aqui”, diz uma funcionária sem se identificar.

“Está identificado como um dos estabelecimentos que o senhor Salvador usou para a lavagem de dinheiro”, diz a procuradora da Republica, Clarisier Morais.

Segundo as investigações, o espanhol usou dinheiro do tráfico para comprar R$ 28,5 milhões em imóveis, no Rio Grande do Norte.

Salvador Arostegui chegou a ser preso na Espanha.

Procuramos o advogado que, segundo a funcionária do Centro Comercial, cuida dos negócios do espanhol. Ligamos mais de dez vezes para o advogado, mas ele não retornou.

A prefeitura de Natal informou que já tinha autuado e multado os donos de alguns bares onde flagramos o turismo sexual. O motivo: falta de licença ambiental.

Segundo a prefeitura, alguns estabelecimentos também foram interditados, mas a suspeita é que exista um esquema chamado rodízio de CNPJs.

Ou seja, os bares são reabertos pelas mesmas pessoas, mas com outros nomes e outros documentos.

“A gente busca muito, a prefeitura, trazer um turismo que seja familiar, não esse turismo que facilite o abuso sexual”, conta Alcedo Borges.

Segundo o ministério do turismo, o Brasil já fechou acordos com Espanha, Portugal e Itália para combater o turismo sexual. Mas como nós vimos na reportagem, ainda há muito a ser feito.

“Quem vem pro Brasil com esse objetivo, da exploração sexual, não é turista. É um criminoso e assim será tratado. O Brasil inteiro tenha consciência e se sinta responsável pra proteger nossas crianças, nossos adolescentes, proteger a família brasileira”, revela a secretaria nacional de Políticas de Turismo, Isabel Mesquita.

Fantástico



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